sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Fosse Poesia e eu saberia

 

(Van Gogh, 1888, O salão de baile em Arles)



Fico de fora, sim.

Não. Não gostaria de entrar, obrigada.

Fico bem aqui.

 

Vê-se melhor para dentro

do lado de fora, como sabe,

que não enfarinhados os olhos

nas vãs seduções de momento.

 

Bem, a ventã é espaçosa,

as lâmpadas, luas led vintage

de artificialidades garantidas.

 

Veja, repare como ingerem

copos fumos vícios sapos e rãs

Diga-me, alguma vez os viu assim

lá de dentro?

Repare como riem alegremente

uns com os outros, pela frente

uns dos outros, pelas costas.

Veja-os por dentro, daqui, do lado de fora.

Lestos na arte da palmadinha

depois da facada nas costas.

 

 

Há um não-sei-quê a uni-los,

não lhe parece?

A torná-los terrivelmente equivalentes.

Há um não-sei-quê, isso há.

Fosse Poesia e eu saberia.

 

Fica então, senhor, convictamente,

do lado de fora?

Sim, como poderá compreender,

não derretem à mesma temperatura

todo os poemas, todos os Seres.

 

 

Lídia Borges