Meu neto travou conhecimento
com um escaravelho
que se passeava no pátio
a horas impróprias.
Falavam seriamente
quando os surpreendi,
embora só a voz do menino
me chegasse, límpida.
Quanto ao escaravelho,
patas longas e buliçosas no ar,
recusava-se (tanto quanto me apercebi)
a pousá-las no chão
e a prosseguir viagem.
Foi quando o garoto lhe pegou
com naturalidade,
a palma da mão quase toda ocupada
pelo corpo negro do bicharoco,
e me perguntou
quantos escaravelhos de estimação
tinha eu no pátio.
Não são meus - respondi - são livres.
Então não sabes como se chama este?
Kafka.
É um bonito nome! - observou
enquanto o devolvia ao verde
de um canteiro.
Lídia Borges
