terça-feira, 8 de agosto de 2023

Pequenices


 Meu neto travou conhecimento

com um escaravelho 

que se passeava no pátio

a horas impróprias.


Falavam seriamente

quando os surpreendi, 

embora só a voz do menino 

me chegasse, límpida.


Quanto ao escaravelho,

patas longas e buliçosas no ar,

recusava-se (tanto quanto me apercebi)

a pousá-las no chão

e a prosseguir viagem.


Foi quando o garoto lhe pegou

com naturalidade,

a palma da mão quase toda ocupada

pelo corpo negro do bicharoco,

e me perguntou

quantos escaravelhos de estimação 

tinha eu no pátio.


Não são meus - respondi - são livres.

Então não sabes como se chama este?

Kafka.

É um bonito nome! - observou

enquanto o devolvia ao verde 

de um canteiro.


Lídia Borges