quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Serenidade

 


 

Chega-se da infância da linguagem,

com os olhos dilatados pelo sonho

carregados ainda de astros e brilhos

e abruptamente dá-se de caras

com uma gramática asséptica e fria

a atropelar flores, a perfurar os ouvidos

com os ditames de passos 

que não haveremos de dar.

O embate no solo, inevitável. 

 

Não sei agora como lidar

com estas poliédricas formas, 

de aguçadas arestas, faces amolgadas 

vértices tangidos de desencontros.

 

Tomara saber como, o sono das árvores

como repetir as vozes que folhas e pássaros 

me escrevem, por dentro. 

Leio-as, contudo, e posso ser sereno 

em cada verso que não escrevo.


Lídia Borges