Quando me pedires, por graça ou falta, que escreva um poema com a tua voz, não contes que o vá fazer com palavras minhas. Saberei eleger das tuas, aquelas que guardas no fundo de gavetas empenadas, julgando-as inacessíveis e impenetráveis.
Quando me pedires que escreva um poema, a partir de ti, com a tua voz,
quererás, por certo e, por vias travessas, conhecer a imagem que tenho de ti inscrita
no meu caderno de sigilos.
Escrever a partir de ti, com palavras tuas é para mim um jogo absurdo, indolor
porque me és lonjura e descampado, porque não necessito de pôr no que digo a
dor de um parto concreto, mas tão-só a prosa provável que tu, sobre ti, jamais escreverias.
Se pudesse aceitar pedido tão infeliz, serias certamente o primeiro leitor
desse texto bastardo. Entrarias nele para achar o ignorado, descobrir, não
apenas as feições com que te modelo, mas também a possibilidade objetiva de te
enfrentares sem filtros, remições ou indulgências.
Desagrada-te? Pois é sempre possível discordar, poderias até, se assim o
entendesses, rasgar a página onde a tua voz te confrontasse do lado de fora de
ti, todavia, eu passaria a ser o teu espelho quebrado onde, narciso ofendido,
não deixarias de te mirar.
Entendes agora a minha
relutância em escrever com a tua voz?
Lídia Borges
