segunda-feira, 19 de maio de 2025

"Demokratía"

 

 

Logo, o povo é quem mais ordena

 

Tomemos por base a palavra Democracia, Demokratía, de dêmos (povo) + kratía (força, poder). Assim, democracia é a força ou poder, emanados diretamente do povo.

E se, há cinquenta anos, o povo massacrado, perseguido, ostracizado ordenou que se fizesse Abril, ontem, o povo ordenou que se fechassem “as portas que Abril abriu”.

Dou comigo a pensar que povo é este que se não reconhece nos seus valores ancestrais de solidariedade, de fraternidade, na Cultura, na História. Perdido nas “brumas da memória”, disperso, desatento, egoísta, “letrado”, mas sem literacia política, cultural, social. Desagregado da noção de Coletivo, afastado de um “nós” que, pouco a pouco, foi cedendo lugar ao “eu”, um “eu” de braço estendido, negando princípios humanos fundamentais ao equilíbrio da vida em comunidade, saudando o ódio, a guerra, a perfídia, a banalidade, o ter em detrimento do ser…

De novo, “as portas que Abril abriu” parece quererem fechar-se. De novo a luta pela paz, o pão, educação, saúde, habitação. Àqueles que acreditam num mundo melhor, mais justo, resta RESISTIR. 

***

 Hoje lembro, com alguma tristeza, meu pai. A viver bem, enquanto funcionário da FNAT, (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho) no antigo regime, recusou, contra tudo e todos, ser parte integrante daquela máquina de propaganda da ditadura de Salazar. Trocou o certo pelo duvidoso para desespero de minha avó que, em confronto direto com as “utopias” de meu pai, temia por ele e por nós, seus netos, ainda crianças. Além do mais, para ela, ele exercia um cargo privilegiado, de importância e respeito reconhecidos. Alheio a essas racionalidades, pediu demissão, indo trabalhar numa empresa de metalurgia, com menor rendimento, menores condições de vida, portanto. Perseguido e deslocado, a exercer uma função abaixo das suas capacidades que lhe deixou calos nas mãos, mas, em contrapartida lhe deu a paz de espírito almejada. Muitos lhe chamaram “burro”. “Um burro consciente que se quer, antes de tudo, de bem consigo próprio” - respondia.  Escolheu um modo de vida difícil, mas em concordância com os princípios e valores humanos que preconizava. Herdei-os dele… todos, sem exceção!


Lídia Borges