domingo, 4 de maio de 2025

Irene (nome fictício)


 Havíamos saído de casa com bastante antecedência. Os cerca de cinquenta km, que nos separavam do destino,  a percorrer debaixo de vento e chuva intensa, impunham maiores precauções. Lá chegados, ela veio receber-nos - sou a enfermeira Irene - apresentou-se. Vou tratar do internamento e acompanhá-la, enquanto estiver aqui, connosco. 

Todos os procedimentos que tiveram lugar nas primeiras horas, desde que ali dera entrada tiveram como música de fundo a voz da enfermeira Irene. Franzina e ágil, pouco mais que menina, uns olhos vivos por cima da máscara que sorriam sempre. Soube que tinha dois "maridos" em casa, um crescido com quem dormia, às vezes, se ele ou ela não tivessem de "fazer noite". O outro marido de quatro anos - Pedro - com quem dormia nas noites em que o primeiro estava de serviço. De cada vez que dizia "Pedro", o brilho intensificava-se nos seus olhos, negros de azeviche. Fiquei a saber muito sobre o Pedro e a sua família, sobre a alegria do encontro a três, aproveitada até à última gota, depois dos longos períodos de trabalho,  a precariedade dos  momentos de descanso, em família, a dificuldade em conciliar horários para que o Pedro tivesse sempre, durante a noite, um dos pais consigo, pois, sendo "o primeiro marido" também enfermeiro, numa outra unidade de saúde, fora da cidade, a logística tornava-se, dia a dia, um verdadeiro quebra-cabeças. A agravar a situação, o facto de nenhum dos dois ser natural dali (coisa que o sotaque beirão da enfermeira Irene não desmentia) e, como tal, não poderem contar com nenhum suporte, nenhum apoio da família alargada. 

Claro que tudo isto podia não passar de um tema de interesse relativo para quem está ali, em situação de grande ansiedade. Porém, a Irene, colocava tal ternura na voz, ria tão genuinamente, a sua benevolência e sentido de humor eram tão palpáveis que, dir-se-ia ter plena consciência  de que a conversa, o sorriso, a anedota brejeira eram instrumentos a que deitava mãos para espalhar "flores" nos metros escassos de chão que me separavam do bloco operatório. Ouvia-a com atenção, observava os seus movimentos que, conversa nenhuma, afastava da precisão: recolha de sangue, desinfeções várias, testes, cateteres a postos nas veias, touca para guardar o cabelo...

Depois apaguei-me. Depois, não sei quantos dias depois, vi de novo a Irene - Não tem febre, a tensão está boa, precisa de fazer por comer alguma coisa e... olhe que esta cicatriz parece feita por um costureiro da alta costura. Só a Irene para me fazer rir - desabafei. Não sei dizer o que aconteceu, entretanto, ao "enfermeira Irene" da primeira hora. Era agora "Irene" apenas como se, repentinamente, se tivesse abeirado mais do que devia do meu coração. 

Na despedida, agradeci-lhe toda a atenção, todos os cuidados. Elogiei a sua boa disposição, o carinho, o esforço para que tudo corresse bem, não só comigo, mas com outros doentes, alguns dos quais chamavam por ela, antes que outra/outro viessem prestar-lhes os cuidados necessários. Porém, quando realcei a sua disponibilidade, a sua simpatia num lugar como aquele, a abarrotar de gente doente e de profissionais  apressados, exaustos ou indispostos, a surpresa veio como um murro no estômago: eu já estive desse lado, sabe?- murmurou ao meu ouvido - sei coisas que outros não sabem, fui operada duas vezes, num ano.  O brilho dos seus olhos desta vez não era de luz, mas de água.  - Tenho cancro de pâncreas. 

O meu coração remendado, estremeceu e ficou a doer mais, muito mais do que devia. 

Lembro-me dela, todos os dias. Todos os dias a imagino, feliz, com os seus dois maridos - um crescido e o outro pequeno de quatro anos - Pedro - que tem o dom de encher de bondade, de alegria e de esperança os olhos e a vida de Irene. 


Lídia Borges

(Imagem: Google)