sábado, 26 de julho de 2025

A maçã mais doce

 


Dentro de casa, a penumbra,

Os 22 graus recomendados fazem-me esquecer o verão.

Sinto carecimentos do verão e saio para o pátio.

Solitário, o cadeirão de verga espera-me.

 

A tarde estiola sob um silêncio antigo

Os trinados que sobrevoam os quintais não são tumulto

são parte lícita desse silêncio.

 

Não me pressente o melro que revolve as folhas da macieira

pulando arisco de ramo em ramo.

Voa agora para longe. Deixá-lo…

 

Deixo que meus olhos sigam pelas letras da aldeia de Louise Glück

O calor está no centro, de tal modo constante que uma pessoa

nem dá por isso.

 

Dou por isso.

Não deixo que me balize as sensações, o verão.

Que me furte o voo atordoado desta borboleta branca

que agora passa diante de mim,

 

não deixo que a obscuridade que sossega o interior da casa

me escureça o olhar,

que esta vida de aldeia me adormeça como adormece os homens

sempre cansados

deitados debaixo do seu dossel, protegidos do calor,

como se o trabalho estivesse concluído.


Quantas primaveras, quantos verões até que os homens acreditem:

Sem sementeiras, como o tempo das colheitas?

 

O melro voltou. Encantado, debica a maçã mais doce.

 

Lídia Borges