Dentro de casa, a penumbra,
Os 22 graus recomendados fazem-me
esquecer o verão.
Sinto carecimentos do verão e saio para o pátio.
Solitário, o cadeirão de verga espera-me.
A tarde estiola sob um silêncio antigo
Os trinados que sobrevoam os quintais
não são tumulto
são parte lícita desse silêncio.
Não me pressente o melro que revolve as
folhas da macieira
pulando arisco de ramo em ramo.
Voa agora para longe. Deixá-lo…
Deixo que meus olhos sigam pelas letras
da aldeia de Louise Glück
O calor está no centro, de tal modo
constante que uma pessoa
nem dá por isso.
Dou por isso.
Não deixo que me balize as sensações, o
verão.
Que me furte o voo atordoado desta
borboleta branca
que agora passa diante de mim,
não deixo que a obscuridade que sossega o
interior da casa
me escureça o olhar,
que esta vida de aldeia me
adormeça como adormece os homens
sempre cansados
deitados debaixo do seu dossel,
protegidos do calor,
como se o trabalho estivesse concluído.
Quantas primaveras, quantos verões até
que os homens acreditem:
Sem sementeiras, como o tempo das colheitas?
O melro voltou. Encantado, debica a maçã mais doce.
Lídia Borges
