I
O poeta das 4 da tarde voltou. Está tão quieto e
calado como a própria tarde. Seu silêncio é mordente, austero, febril. Não mexe
uma palha nos seus pensamentos como não mexe uma folha nos ramos das tílias do jardim como se, a brisa, toda afago e suavidade, rumasse definitivamente ao mar.
Às vezes duvido se ele, o poeta, existe realmente ou se
a minha imaginação, entre vertigem e caos, o traz até mim,
testando minhas capacidades de concentração, interesse e paciência.
Observo-o, hirto, o semblante carregado, os olhos postos além, num infinito só seu. Estático e frio, lembra uma pedra de gelo que não derrete com o calor do sol, ali tão perto, tão cálido, tão absolutamente real.
II
A tarde vai caindo, agora. Não deixamos que as
palavras se interponham entre nós. Elas podem tirar-nos do estado de alheamento
que nos irmana. Olhamos apenas a vida que pulsa em redor e a outra, a que pulsa
dentro de nós e nos obriga a viver. E somos unos nesse olhar de pinhais e pássaros e vinhas e campos
de milho, a amadurecer. E somos tão senhores de nós que a água que corre no
regato ali perto, é por dentro de nós que corre e é fonte e sangue e vida e
feliz repleção. Que importa que o dia tombe como uma réstia de luz sobre a velha
casa que habitamos, a céu aberto. Mesmo que o silêncio do poeta seja uma porta cerrada,
sabemos que, a todo o instante, ela poderá abrir-se. E então a sua voz, finalmente, encontrar-me-á. Embora a não ouça com a nitidez, ainda, vejo-a, digamos assim, através
da tela da memória. Com gestos precisos e ávidos reconstrói, pedra a pedra, a estrada
para o lugar ermo onde se refugia sempre que lhe é imperativo afirmar ou negar
o Amor.
Lídia Borges (Fragmentos)
(imagem:pinterest)