sábado, 5 de julho de 2025

Retorno

 


Então, quando a ausência dela

Começava já a morder,

Avistei-a, ao longe, da minha janela.  

A minha Alma voltava

E eu bem-aventurada só de a ver.

 

No dia em que tiveram de parar-me o coração

Ela abandonou meu corpo, equivocada,

Sem uma lágrima chorada

Ou meia palavra de contemplação.

 

Depois, quando restituíram ao meu coração

Os devidos batimentos,

ela não devolveu emoções e sentimentos

ao lugar que deixara vazio.

 

Esperei dias a fio,

Uma fala febril de água e areia, somente.

O corpo macerado de dor e ausência

E um incêndio de lírios à toa pela mente.

 

Não sei por onde andou, minha Alma

Todo esse tempo em que a senti evadida.

Metade de mim, indignação

Outra metade, saudade ofendida.

 

Enfim, regressava

Na mesma barca em que, por engano, fora levada

A atravessar o Aqueronte

Sem que defronte fosse aguardada.


 

Lídia Borges

imagem (Pinterest, s/ ind. autoria)