sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta - Herberto Helder

 


que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta
que nem se pode respirar,
gente que não precisa de oxigénio nem pensamento,
nem de uma só palavra que brilhe
e vá ao fundo da luva como a mão presta,
grande parte do povo não usa nenhuma
nem guarda nada de cabeça.
?que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:

- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas

- mas - ia eu para dizer, mas calei-me de repente

e pensei muito longe:

quero voltar depressa aos modos do mundo dos assombros

(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)

 

Herberto Helder in Letra Aberta