domingo, 29 de março de 2026

À conversa com Nuno Júdice

                                                                 

 “Sabem onde se compra um bilhete para as nuvens?”, pergunto.

E elas apontam para o guiché que continua fechado.

“É por isso que os autocarros saem vazios daqui”,

diz uma delas na língua do Olimpo.

 

Nuno Júdice (2013:p.56), “Greve Geral”

 in Navegações de Acaso.


 

Estás sentada no cadeirão do pátio.

Por cima da tua cabeça

um chapéu largo crivado 

de pequeníssimas flores

estremece esperando o fruto.

O zunido das abelhas sobe e desce,

música na pauta dos teus sentidos.

 

Nos caules aéreos da memória

o domingo sustenta-se:

uma pedra ali, uma flor acolá.

Podes colher a flor, mas não o faças já.

Contorna a pedra,

vês agora para além do muro

 

Há um autocarro que passa

com destino à nuvem mais alta.

Os autocarros circulam. É domingo.

Ao domingo não há greve geral.

 

Atreves-te a tomar o autocarro,

a levantares do chão instável

teus pés de vento.

Quando chegares à nuvem

vais deitar-te no sono como se não existisses.

Esperas não ser atingida pelo granito em fogo

erguido do solo calcinado.

 

No interior do coração

o zunido das abelhas ondula

corre na pauta dos teus sentidos.

Sobe e desce como um regato. Bebes dessa água

para não morreres de sede.


Lídia Borges (inédito)