“Sabem onde se compra um bilhete para as nuvens?”, pergunto.
E elas apontam para o guiché que continua fechado.
“É por isso que os autocarros saem vazios daqui”,
diz uma delas na língua do Olimpo.
Nuno Júdice (2013:p.56), “Greve Geral”
in Navegações de Acaso.
Estás sentada no
cadeirão do pátio.
Por cima da tua cabeça
um chapéu largo crivado
de pequeníssimas flores
estremece esperando o
fruto.
O zunido das abelhas
sobe e desce,
música na pauta dos
teus sentidos.
Nos caules aéreos da memória
o domingo sustenta-se:
uma pedra ali, uma flor
acolá.
Podes colher a flor,
mas não o faças já.
Contorna a pedra,
vês agora para além do
muro
Há um autocarro que
passa
com destino à nuvem mais
alta.
Os autocarros circulam. É domingo.
Ao domingo não há greve
geral.
Atreves-te a tomar o
autocarro,
a levantares do chão instável
teus pés de vento.
Quando chegares à nuvem
vais deitar-te no sono
como se não existisses.
Esperas não ser atingida
pelo granito em fogo
erguido do solo
calcinado.
No interior do coração
o zunido das abelhas ondula
corre na pauta dos teus
sentidos.
Sobe e desce como um
regato. Bebes dessa água
para não morreres de
sede.
Lídia Borges (inédito)
