quarta-feira, 25 de março de 2026

A obscuridade é uma parede

 


As palavras são portas

                          são pontes

                                   são túneis

                                           são estradas

                                                  são passagem.

 

Em redor delas a obscuridade é uma parede.

Desenhas nela uma porta que cede como se nuvem  

quando a empurras suavemente. Não tarda que chova.

Não. Não queres vê-las só em sua intimidade lexical

queres conhecer o bairro onde vivem 

queres saber-lhes os mistérios finitos e infinitos  

queres entrar nelas,

invadir todo o espaço depois da porta

                                         depois da ponte,

                                                  depois do túnel

                                                          depois da estrada

                                                               depois da passagem.

 

Chegar finalmente a casa.

Procurar a ternura que ela guarda na música que não ouves. 

Ensurdeceste?

São muitas as vozes a cruzar teu semblante. Eu vejo-as.

Impossíveis submersas luzentes fugazes. 

O lugar delas na memória é onde a distância

deixou de ser um bicho manso aninhado no meu colo 

e passou a morder e a rasgar a pele como tigre feroz.

 

As palavras

       sobrevivem

               sobem degrau a degrau

                          a escada para o poema.

 

Em redor dele há um bando de folhas caídas 

É preciso apanhá-las.

 

Lídia Borges

(A meu irmão)



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