domingo, 7 de junho de 2026

Acontecimento

 

A casinha está no mesmo sítio há, pelo menos, duas primaveras. A dois terços da altura de uma das paredes laterais da casa, onde, nesta época do ano, um acer frondoso e verde depõe a sua sombra.  A ideia era que alguma família de passarinhos a fosse habitar e, desse modo, poder dizer-se que sim, sim senhor, havia hóspedes de asas, lá em casa. Foi uma desilusão para as crianças quando nada sucedeu, quando se percebeu que não havia avezinhas interessados em alugar, comprar ou mesmo ocupar sem custos a casinha/ninho. As crianças foram olhando menos, cada vez menos para o sítio onde ela se mantinha pendurada. A esperança de a verem habitada foi-se desvanecendo, pouco a pouco, até que caiu em esquecimento.

Este ano, porém, tudo mudou.

Um movimento anormal de asas, a rondar a casinha desocupada, não passou despercebido a ninguém e muito menos aos miúdos sempre atentos aos pequenos mistérios, em redor. Era um vai e vem de voos acrobáticos, um frenesim no transporte de material de construção de incubadoras para depósito de ovos. Depois, foi o grande acontecimento. Pela manhã, ao sair para mais um dia de trabalho, passando debaixo da casinha, ouviram-se chilreios múltiplos e contínuos de bicos mínimos mas muito persistentes e atabalhoados. Agora, as crianças baixam as vozes, quando passam perto, pois, os recém-nascidos podem estar a dormir, o que, diga-se de passagem, é pouco provável, a avaliar pela atividade contínua dos pais na busca de alimento para os calar.  – São mais chorões que os bebés. – Diz o Tomás. E o Matias acrescenta informação para que a avó dê a devida importância a este grande acontecimento: - É uma família de estrelinhas-de-poupa. São aves pequeninas. Medem 8 a 10 cm e podem pesar menos de 5 gramas. São assim (aproxima os indicadores levantados). É difícil  observá-los porque são tímidos, mas não para nós agora que são nossos convidados. Só temos de ser cuidadosos para que não se assustem. Quando os passarinhos novos quiserem aprender a voar, temos de estar muito atentos. Pode ser preciso salvá-los, podem cair do ninho, pode aparecer algum gato. Pode ser preciso salvá-los…

"Magnifica Humanidade!" Como pode ser tão vulnerável, tão mutável? Como pode ser tão moldável? Até onde as possibilidades  criadoras do Homem? Até onde, as suas possibilidades destruidoras? Até onde, o lado belo da Ciência, até onde o lado bélico da Ciência? Até onde as (im)possibilidades de Deus? 


Lídia Borges (07/06/2026)