sexta-feira, 12 de junho de 2026

Releituras - Nuno Camarneiro

 

(Pintura; Costa Pinheiro)

Lisboa

"O professor circula pelas bancadas distribuindo as dissertações corrigidas e classificadas. Ao chegar a Fernando, entrega-lhe a sua com um gesto lento e reprovador.

- É uma pena, senhor Fernando, uma verdadeira pena. Depois afasta-se para iniciar a aula. Os colegas riem num escárnio acerado que fere o orgulho de Fernando.

A nota é miserável, a mais baixa que teve em todas as disciplinas. Fernando percorre as páginas sem encontrar correcções, uma ou outra vírgula, uma gralha evidente e nada mais. No final do texto está um comentário do professor.

O senhor é sem dúvida dotado de uma finíssima inteligência, não há como nega-lo. O estilo refinado da sua escrita eleva a prosa e dá cor e alma a tudo o que trata. O senhor Fernando tem mão e alma de poeta, mas infelizmente deixa que seja a poesia a tomar conta de si, e não o contrário, como seria desejável.

O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido, não inventado."

Nuno Camarneiro (2011:pág.69)  No meu peito não cabem pássaros

***

Imobilismo


Que miséria, senhor professor! 

Que seria de nós se os poetas deixassem de vez

a "invenção"? 

Que falta nos fariam esses poetas do ver e do entender 

sem o dom de despertar para o novo, 

para o inesperado, 

para a renovação do espanto, 

para o finíssimo raio de Sol 

no meio das sombras.

para a criação de mundos outros (possíveis) 

em que cada um, renegando a inércia, 

se movimenta, se reconhece, se reconcilia

na procura de novos caminhos 

de novos sentidos para a Vida. 

Ver e entender, 

a estátua de mármore

erguida ao Imobilismo.


  

Lídia Borges