(Pintura; Costa Pinheiro)
Lisboa
"O professor circula pelas bancadas distribuindo as
dissertações corrigidas e classificadas. Ao chegar a Fernando, entrega-lhe a
sua com um gesto lento e reprovador.
- É uma pena, senhor Fernando, uma verdadeira pena. Depois
afasta-se para iniciar a aula. Os colegas riem num escárnio acerado que fere o
orgulho de Fernando.
A nota é miserável, a mais baixa que teve em todas as
disciplinas. Fernando percorre as páginas sem encontrar correcções, uma ou
outra vírgula, uma gralha evidente e nada mais. No final do texto está um
comentário do professor.
O senhor é sem dúvida dotado de uma finíssima
inteligência, não há como nega-lo. O estilo refinado da sua escrita eleva a
prosa e dá cor e alma a tudo o que trata. O senhor Fernando tem mão e alma de
poeta, mas infelizmente deixa que seja a poesia a tomar conta de si, e não o
contrário, como seria desejável.
O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido,
não inventado."
Nuno Camarneiro (2011:pág.69) No meu peito não cabem pássaros
***
Imobilismo
Que miséria, senhor professor!
Que seria de nós se os poetas deixassem de vez
a "invenção"?
Que falta nos fariam esses poetas do ver e do entender
sem o dom de despertar para o novo,
para o inesperado,
para a renovação do espanto,
para o finíssimo raio de Sol
no meio das sombras.
para a criação de mundos outros (possíveis)
em que cada um, renegando a inércia,
se movimenta, se reconhece, se reconcilia
na procura de novos caminhos
de novos sentidos para a Vida.
Ver e entender,
a estátua de mármore
erguida ao Imobilismo.
Lídia Borges
