sábado, 31 de outubro de 2009

asas


Cercada de grades, a ave estrebuchava, ignorando que acabaria muda e inanimada na ligeireza inútil das asas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A fonte

A fonte imitava-lhe os olhos, no veludo dos musgos e na nitidez da água onde a dança das sombras se alongavam pela serenidade indizível dum tempo vivido a verde.
Aconchegava-se, agora entre doces lembranças: a surpresa macia de um olhar, o tom morno de uma voz, a percepção alva de um sentimento desmedido, imóvel na timidez das mãos e do coração.
Mas, no fundo da caixinha de memórias, permanecia ainda o envelope empalidecido de todas as incertezas que haveriam de se fazer certas, nos limites de um sonho debelado.
Deixava, então os olhos espalhados por aí, pousando nos asteriscos mais luzentes do seu exíguo universo para ludibriar tristezas.
Era denso o ar que respirava!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A imitação da rosa

"Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo. Em algum momento tinham trepado com ligeira avidez, umas sobre as outras mas depois, o jogo feito, haviam se imobilizado tranquilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais! Disse com surpresa. Poderiam dar a impressão de brancas se estivessem totalmente abertas mas, com as pétalas centrais enrodilhadas em botão, a cor se concentrava e como num lóbulo de orelha, sentia-se o rubor circular dentro delas. Como são lindas, pensou Laura surpreendida.
Mas, sem saber por quê, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh, nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava."
Clarice Lispector

sábado, 24 de outubro de 2009

Agora é maior a distância

Agora é maior a distância,
Mais escuro o vazio,
mais real a ilusão.

Agora, as minhas mãos dispersam-se
nas flores mortas das manhãs sem sol
em busca dos perfumes perdidos.

Os sorrisos fecharam-se nos rostos.
Os rostos fecharam-se em si
e acabaram submersos
nas teias tardias do ontem.

Terei sido eu a partir?
Serei eu aqui, ou outro
veio morar em mim?

Vão cegando meus olhos em vãs procuras
porque agora é maior a distância,
mais escuro o vazio, mais real a ilusão!


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Hoje no vazio que semeei em mim
Quando o silêncio se passeava
Pelos recantos da casa
E o nada lavrava os campos do meu ser
Senti-te chegar

Trazias nos olhos paletas de mil cores
E pintavas
Os frutos nas minhas árvores
Os ninhos e os pássaros dentro deles
Os verdes e as flores de muitas primaveras
As folhas suspensas em dourados outonais
A transparência das águas a revelar
um sol aceso
Bem no meio do meu coração

Hoje contigo aqui
não há mistério que me intimide
nem lucidez que me ameace

Contigo aqui
nenhum dos meus impossíveis
Terá a audácia
de se fazer possível!

sábado, 17 de outubro de 2009

Frente a frente

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.


Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Fragilidade

Por indecifráveis processos metafísicos, transformara-se numa frágil estatueta de vidro prestes a quebrar-se.
Pediu que lhe pegassem com cuidado e a colocassem sobre o napperon da inutilidade no móvel das desvivências.
Talvez ali, liberta de vaticínios pudesse então, adormecer…

sábado, 10 de outubro de 2009

grinalda de algas

Quis encarar o dia sem poesia,
sem nenhuma lupa insidiosa
a rendilhar os contornos dos olhares.

Fechei as metáforas, as estrofes e as rimas
no moleskin encarnado dos meus segredos
e fui deambular junto do rio.

No interior do leito, em ecos verdes profundos
o coração das águas batia e dele brotavam louvores
libélulas hinos, limos, rumores…

Deixei-me perder de amores.

E a poesia emergente, em ondas alvas de luz,
gravou versos sem fim, numa grinalda de algas
que fizera para mim.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Solidão

Só o limoeiro resistia ainda às garras mortais do abandono, ainda que nas suas folhas já se insinuasse a noite. Os limões maduros eram pequenos sóis ovais que aqueciam as vozes dos pássaros nas horas poentes dos relógios.
Era o momento das almas penadas despontarem do chão para se entranharem nos interstícios da mente.
Dizia, então:
Tenho medo, quando estou só e não me dói nada.
Temo já ter morrido!

domingo, 4 de outubro de 2009

Professores

Nos finais da década de setenta, ela professora-menina, ainda de saias de pregas e meias até aos joelhos, foi colocada numa aldeiazinha serrana, nos confins do Minho. Tinha sorte! Contrariamente ao que acontecia com outros professores, obrigados a deixar o conforto do lar, ela podia regressar a casa todos os dias, no final das aulas.
Mas isso, custava-lhe alguns sacrifícios: primeiro era o autocarro, depois a “camioneta da carreira”, seguia-se a boleia de uma colega de profissão e finalmente uma caminhada de três km por cangostas onde não passava vivalma. No regresso tudo se repetia, em sentido inverso.
A escola era uma simples construção isolada, em granito de uma só sala, em avançado estado de degradação. Nas janelas havia cartões no lugar dos vidros partidos, o soalho esburacado era habitado no seu interior por famílias descaradas de ratos que nos silêncios, saíam das suas tocas para comer os grãos de milho, utilizados nos cartazes, produzidos nas aulas.
As crianças, (eram onze) de famílias pobres vivendo da agricultura de subsistência, quando chegavam à escola, traziam apenas cansaços, sono, fome e, nos rigores do Inverno agreste, muito frio.
Ora, logo no início de Outubro, quando os dias começaram a ser surpreendidos pela falta de luz, a meio da tarde, a professora, viu-se inundada por um medo imenso. Assustava-a ter de fazer o percurso a pé, pelos caminhos isolados e escuros até ao local onde apanhava a boleia. À medida que a noite caía, as sombras cresciam no silêncio e ela tremia. O frio tornava-se mil vezes mais frio e ficavam visíveis aos seus olhos, todos os fantasmas que habitavam o atalho.
Felizmente para ela, não durou muito tempo, esta angústia.
Um dia, à hora da saída reparou que contrariamente ao habitual, o Francisco, um miúdo com catorze anos que já reprovara várias vezes [fazia falta em casa para ajudar no trabalho do campo], não saiu da sala com os outros alunos. Permanecia quieto, meio envergonhado junto da porta. À interrogação da professora, respondeu:
-Tenho de acompanhá-la, até ao carro que agora é noite. Foi o meu pai quem mandou!
Emocionada, abriu muito os olhos para dar espaço às lágrimas, não fossem elas cair. Tentou dissuadi-lo embora com pouca firmeza, mas ele estava determinado.
Seguiram conversando e nessa noite, sozinha no seu quarto, ela já não chorou!
Nos dias que se seguiram, ao grupo de dois, professora e aluno, foram-se juntando outros. Todas as crianças queriam agora acompanhá-la. Levar-lhe a pasta, avisá-la das pedras e das poças de água no caminho, defrontar e vencer os dragões da noite que a assustavam.
Eles não tinham medo. As suas humildes casinhas de pedra concentravam-se num mesmo lugar. Para além disso, aqueles caminhos, parecia não terem segredos para eles.
Cada dia passou a ser uma festa! Nas aulas trabalhavam com afinco, mas à saída, dentro do escuro, riam, contavam das colheitas, das sementeiras do inverno, dos pintainhos, dos cordeiros, dos coelhos… Às vezes, conjugavam os verbos bem alto: eu gosto/tu gostas/ ele gosta… E cantavam a tabuada para mostrar à professora que a sabiam, bem na ponta da língua. Ela gostava!
Ali, quase tão criança quanto eles, aprendia a aldeia, a serra, a generosidade das gentes, o amor puro e desinteressado… Aprendia a vida!
Nunca mais teve medo do escuro, ficou a saber que dentro dele, sempre haveria vozes cristalinas de crianças:
eu gostei/tu gostaste/ele gostou…

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Menino da rua


Ao vê-lo sozinho, de olhar tímido e inquieto
estendi-lhe a mão e caminhámos juntos
até à entrada do sonho.
Bati delicadamente
e mal a porta se abriu, nos olhos da criança
um brilho se acendeu.
Alacridades inocentes!

Correu de mãozinhas abertas
a apanhar estrelas cadentes…

Sentei-me, então no degrau mais alto da emoção
a vê-lo no arco-íris, misturar as cores,
subir às árvores, bater as palmas, contar flores…
Rodopiar como um pião e rir até cair tonto, no chão.

Aprendi-lhe do rosto o tom exacto da alegria
e das mãos, a pintar telas de fantasia.
No final do dia, com o sol a rasar o horizonte,
cansado e indefeso, adormeceu
ao colo da utopia que dele se condoeu


Com o sonho a findar, desci para o ir buscar,
à realidade o devolver. Assim tinha de ser!

Desde então o meu acordar
flutua nas ondas de um único pensar:
arrancar à rua os meninos, dá-los ao meu sonhar
E depois… Corporizar o sonho
para lhe poder tocar.