
Nos finais da década de setenta, ela professora-menina, ainda de saias de pregas e meias até aos joelhos, foi colocada numa aldeiazinha serrana, nos confins do Minho. Tinha sorte! Contrariamente ao que acontecia com outros professores, obrigados a deixar o conforto do lar, ela podia regressar a casa todos os dias, no final das aulas.
Mas isso, custava-lhe alguns sacrifícios: primeiro era o autocarro, depois a “camioneta da carreira”, seguia-se a boleia de uma colega de profissão e finalmente uma caminhada de três km por cangostas onde não passava vivalma. No regresso tudo se repetia, em sentido inverso.
A escola era uma simples construção isolada, em granito de uma só sala, em avançado estado de degradação. Nas janelas havia cartões no lugar dos vidros partidos, o soalho esburacado era habitado no seu interior por famílias descaradas de ratos que nos silêncios, saíam das suas tocas para comer os grãos de milho, utilizados nos cartazes, produzidos nas aulas.
As crianças, (eram onze) de famílias pobres vivendo da agricultura de subsistência, quando chegavam à escola, traziam apenas cansaços, sono, fome e, nos rigores do Inverno agreste, muito frio.
Ora, logo no início de Outubro, quando os dias começaram a ser surpreendidos pela falta de luz, a meio da tarde, a professora, viu-se inundada por um medo imenso. Assustava-a ter de fazer o percurso a pé, pelos caminhos isolados e escuros até ao local onde apanhava a boleia. À medida que a noite caía, as sombras cresciam no silêncio e ela tremia. O frio tornava-se mil vezes mais frio e ficavam visíveis aos seus olhos, todos os fantasmas que habitavam o atalho.
Felizmente para ela, não durou muito tempo, esta angústia.
Um dia, à hora da saída reparou que contrariamente ao habitual, o Francisco, um miúdo com catorze anos que já reprovara várias vezes [fazia falta em casa para ajudar no trabalho do campo], não saiu da sala com os outros alunos. Permanecia quieto, meio envergonhado junto da porta. À interrogação da professora, respondeu:
-Tenho de acompanhá-la, até ao carro que agora é noite. Foi o meu pai quem mandou!
Emocionada, abriu muito os olhos para dar espaço às lágrimas, não fossem elas cair. Tentou dissuadi-lo embora com pouca firmeza, mas ele estava determinado.
Seguiram conversando e nessa noite, sozinha no seu quarto, ela já não chorou!
Nos dias que se seguiram, ao grupo de dois, professora e aluno, foram-se juntando outros. Todas as crianças queriam agora acompanhá-la. Levar-lhe a pasta, avisá-la das pedras e das poças de água no caminho, defrontar e vencer os dragões da noite que a assustavam.
Eles não tinham medo. As suas humildes casinhas de pedra concentravam-se num mesmo lugar. Para além disso, aqueles caminhos, parecia não terem segredos para eles.
Cada dia passou a ser uma festa! Nas aulas trabalhavam com afinco, mas à saída, dentro do escuro, riam, contavam das colheitas, das sementeiras do inverno, dos pintainhos, dos cordeiros, dos coelhos… Às vezes, conjugavam os verbos bem alto: eu gosto/tu gostas/ ele gosta… E cantavam a tabuada para mostrar à professora que a sabiam, bem na ponta da língua. Ela gostava!
Ali, quase tão criança quanto eles, aprendia a aldeia, a serra, a generosidade das gentes, o amor puro e desinteressado… Aprendia a vida!
Nunca mais teve medo do escuro, ficou a saber que dentro dele, sempre haveria vozes cristalinas de crianças:
eu gostei/tu gostaste/ele gostou…