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quarta-feira, 9 de março de 2011

Aqui


Aqui, os caminhos são mais lisos,
As montanhas mais altas,
As florestas mais verdes.

Aqui, os vales são mais profundos
E a prata caída no mar mais luzente.
Aqui, a liberdade nas minhas mãos
É uma revelação,
Uma carícia que floresce,
Um arco-íris,
Um milagre breve que me acontece

Aqui são mais bondosos os olhares
E os meus sorrisos não buscam
Nenhum abrigo.

Hoje, a mentira vestiu-se
Com trajes de verdade
E eu finjo que acredito
E fingindo vou acreditando
E acreditando… Sou feliz!

Aqui, são mais lisos os caminhos.

Lídia Borges

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O “meu” Gerês


O “meu” Gerês acinzenta-se, vai perdendo a magnificência do verde às mãos insaciáveis das chamas que lavram, há uma semana… E eu não tenho meios capazes de combater esta ferida que se me acendeu no peito a arder, a arder…

A minha gratidão aos Soldados da Paz (incansáveis) que combatem os incêndios por esse país fora.

sábado, 24 de julho de 2010

A recusa das imagens evidentes

[...]
II

Girassol que na retina
Da planície se dissolve.
És a cor mais repentina
Da aragem que te envolve.

Girassol que só te viras
Ao que não te fica perto
E só giras porque giras
Sobre o teu eixo secreto.
.
Girassol que sem volume
Volume que sem contorno
No despegar-se resume
Só a pressa do retorno.
[...]

Natália Correia
Poesia Completa, (1999), Publicações Dom Quixote

terça-feira, 20 de julho de 2010

Quando o tempo refresca


Quando o tempo refresca, assim,
o Verão suspende a sua euforia
e fica sentado, à espera...

Todas as coisas parecem repousar na sombra:
os pássaros ficam mais lentos,
os frutos descuram o seu crescimento,
a aranha imobiliza-se na teia
e até o silêncio tem um dormir mais profundo.

Fico então perto de tudo,
irmanada na acalmia inesperada
do meu pequenino mundo.
E, quando olho,
outros olhos me olham,
livres da intensidade do sol que cega.
Descubro que sou Outono e…
Como gosto!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Hoje fico à tua espera


Hoje fico à tua espera.
Pego em giz colorido
E desenho uma porta, a castanho.
Recorto uma chave de papel,
Pego nela e abro a porta.
Depois, com giz cinzento
Desenho uma estrada muito comprida
Ponho árvores verdinhas nas bermas,
Papoilas vermelhas nos campos
E um rebanho a pastar.
Com o giz azul faço um rio e peixes.
Em tons de musgo, pinto um velho barco
Parado na margem.
Ao longe, espalho pó roxo e rosa
Na curva das montanhas, perto do céu.
Por fim, faço um grande sol amarelo.
Não pinto nenhuma nuvem,
Nem branca nem cinzenta
Pode chover
E não quero que te molhes
Quando vieres.

Hoje fico à tua espera
Quero dar-te o meu desenho.

sábado, 8 de maio de 2010

O vento



O vento foi chegando, devagar.
Pousou a agitação na magnólia,
ainda há pouco, tão sossegada.

Interrompo-me para contemplar
o bailado verde das folhas.

Já nem o livro entre as mãos
me pede para ser lido,
nem eu faço questão de o ler.

O vento entoa desilusões
na sua ancestral sabedoria.
Entristece-me o que diz
do mundo, dos deuses
e dos homens.
Os meus argumentos,
Vão caindo, gastos, no chão
e duvido, por momentos
da existência dos factos,
(Existem… ou simplesmente
não seriam factos
e não estariam, assim
marcados na minha pele).

Peço ao vento que os leve
No vigor das suas asas
Quero morar sozinha,
em mim
despida do pensamento.
Quero ser como esta árvore
que sem pensar e sem sentir
é feliz, neste jardim.

quinta-feira, 29 de abril de 2010


Flash mob - Braga também tem.

sábado, 27 de março de 2010


Gosto de despir os teus silêncios, em gestos lentos, quando me deixas a falar sozinha.
Não há silêncio que se não revele quando deixado assim, no parapeito de uma janela, ao luar...


terça-feira, 16 de março de 2010


Indiferente à eventual obscuridade interior de nós, a Natureza cumpre-se na hora certa, indizível e autoritária…


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010


É porque ninguém me ouve
e ninguém me vigia
e ninguém me acolhe

que a minha imaginação é livre
e o meu espaço permanentemente novo
Se algum deus habita este vazio

é o deus do vazio
um deus que perdeu a sua densidade enigmática
e é apenas o espectro de uma radiografia branca
[...]

António Ramos Rosa

in"Os animais do sol e da sombra"

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


Conformada com a indubitável negação dos sentidos,
começo a devorar entristeceres uns atrás dos outros.
De que vale a ternura dos teus olhos,
se na lonjura deste azul imaginário
todas as estrelas cadentes arrefecem no fundo do mar?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010


O negro do corpo adensa-se nas rugas rompidas da casca, nos côncavos e convexos da dor, nas veias ressequidas, vazias de sangue, nos filões profundos crestados pelo tempo e pelo fogo incandescente que solidificou nos braços remotos.
Moribunda, permanece na sua verticalidade intrínseca.
Em volta, outras, frágeis, aprendem como se morre de pé.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu quem o bebia.
Quando o mar no horizonte desaparecia
e a areia férvida não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

árvores

Imersas no silêncio da tarde fria
As árvores exibem seus braços longos

Desaguam em punho cerrados,
Os braços, rasgando o ar…

Seiva incólume em ventres inchados
Na gravidez de uma primavera que virá
Se o tempo se não detiver
Nas tardes quietas do inverno.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009


A esta aragem fria que me afaga o rosto e me envolve com braços longos e nus, eu agradeço…

Ela sabe conciliar-me com os medos e sossegar-me na desordem indomável dos dias.

sábado, 7 de novembro de 2009

Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília Meireles

sábado, 24 de outubro de 2009

Agora é maior a distância

Agora é maior a distância,
Mais escuro o vazio,
mais real a ilusão.

Agora, as minhas mãos dispersam-se
nas flores mortas das manhãs sem sol
em busca dos perfumes perdidos.

Os sorrisos fecharam-se nos rostos.
Os rostos fecharam-se em si
e acabaram submersos
nas teias tardias do ontem.

Terei sido eu a partir?
Serei eu aqui, ou outro
veio morar em mim?

Vão cegando meus olhos em vãs procuras
porque agora é maior a distância,
mais escuro o vazio, mais real a ilusão!