domingo, 7 de novembro de 2010

Biblioteca

Estou sozinha aqui, nesta floresta de livros. Dezenas de estantes perfilam-se, carregadas. Uma imensidão de livros: Geografia, História, Biologia, Linguística, Dicionários, Literatura...

O silêncio dir-se-ia absoluto, não fosse o som seco e monótono do ar condicionado. Já percorri várias estantes. É Sophia de Mello Breyner Andresen que procuro. Da sua narrativa infanto-juvenil, nada de novo: o maravilhoso, o fantástico, os modelos, os valores, a depuração discursiva… Preciso de chegar mais longe, mais perto da sua magia, da essência da palavra, mais perto do encantamento da criança quando lê ou ouve ler Sophia.

Será que a literatura infanto-juvenil deve ter, apenas, uma vocação pedagógica? Será o texto um mero pretexto para inculcar ensinamentos, elementos linguísticos ou outros que vão preenchendo as lacunas inerentes ao estado de desenvolvimento das crianças e jovens?

Goethe, aos 81 anos disse: “Ainda não aprendi a ler; leva-se uma vida inteira a aprender e quando se morre ainda não se acabou”.

O som de passos faz-me suspender a atenção. Uma funcionária martela, violentamente, o silêncio com pancadas vivas e ritmadas dos saltos dos sapatos, no soalho.

Oh!... Logo agora que começava a dar-me conta de tantas conversas cruzadas, vozes que, em surdina, saíam dos livros, contando segredos do passado. Gulliver e Alice no País das Maravilhas, em grande paródia riam de tudo e todos, enchendo o ar de encantos, mas quando a funcionário chegou, desvaneceram-se como nuvem soprada por um vento forte e malévolo.

Será que ela se apercebeu de tamanha indelicadeza? Arruma agora uma estante. Não pára!

Eu arrumo as minhas coisas. Vou embora.

Detesto saltos!

21 comentários:

Állyssen disse...

Ah, minha querida... que gostoso de se ler... eu sou uma adoradora perpétua, desde sempre, de bibliotecas! Adoro essas estantes repletas de vidas prontas para serem folheadas e encenadas por vozes de pensamentos alheios!
Ficou deliciosa sua narrativa, com magia na cena... saltos são assassinos do sagrado silêncio em que as histórias tomam vida!
Beijos, Lídia!
Com carinho,

Álly.

Vivian disse...

...que encanto de canto é este teu
canto nos chamando à magia da
boa leitura, dos poemas e poesias,
alimentos de todo dia.

um beijo silencioso, querida!

angela disse...

Imagino seu desapontamento. Deveriam ser proibidos saltos em bibliotecas.
Poderiam usar pantufas de feltro.
beijos

Virgínia do Carmo disse...

Por mais estranho que pareça (e parece!) ainda há pessoas que não conhecem o bom senso!

Beijinho

Zélia Guardiano disse...

Lídia
Sensibilidade é coisa que anda em falta, nos dias que correm.
Penso que pessoas sensíveis sabem, e muito bem, respeitar o próximo, os lugares sagrados [porque biblioteca é lugar sagrado], a natureza, a vida!
Penso que sensibilidade é tudo...
Muito interessante sua postagem!
Muito!
Um abraço, querida

Mona Lisa disse...

Olá Lídia

A cumplicidade do silêncio do pensamento com os livros, quebrado pelo ruído incomodativo (de uns tacões).

Bjs.

Jaime A. disse...

Li este texto e recordei Jorge Luis Borges e sua "Biblioteca Infinita"... a busca de Sophia, a busca da "escrita" que há cada um de nós.
Gostei muito.

Ana Echabe disse...

Também não gosto principalmente quando a lugares que indicam silencio.
Talvez a noite depois da biblioteca fechada a Sophia tenha circulado por ai e resolveu trocar de sessão pois percebeu que estava já na hora do adulto retirar a sua criança do armário e trazer ao seu lado para então compreender as outras lá de fora.
Sempre que entro em uma biblioteca imagino vários escritores circulando pelos corredores, atentos a cada livro que pegamos sentados na prateleira e alguns ainda a jogar livros aos nossos pés.
Tantas palavras ainda a serem ditas...

Bjinhos e uma boa semana a vc.

Jorge disse...

Amiga! Acompanho-a na sua indignação. Também detesto os saltos e os sobresaltos altamente sonoros [um lugar comum que infelizmente desfila nas nossas bibliotecas] com que zelosas e irrequietas funcionárias se dignam presentear-nos.
Bj
J

Unknown disse...

"Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca."

Beijo.

Mª João C.Martins disse...

Há espaços de silêncio onde até o som de um livro lançado abruptamente sobre uma mesa, é uma autentica agressão dos sentidos.
Há espaços de silêncio, onde apenas queremos ouvir aquilo que nos acontece cá dentro.

Um beijinho

lis disse...

Adorei Lídia
biblioteca é o meu refúgio , sempre.
espaço silencioso (às vezes) rs e os sentidos afloram.
bom ler voce assim numa prosa poética.
obrigada por compartihar momentos tão particulares e bonitos.
meus abraços

Rosa dos Ventos disse...

Que belo texto!
Tenho saudades de entrar assim numa biblioteca...
devagar, olhando à minha volta, procurando simplesmente.

E.A. disse...

Na biblioteca, em pés de veludo, ouvindo acordes de sonhos...

Um beijinho

MariaIvone disse...

E o encanto quebrou-se!
A magia das bibliotecas proporciona-nos momentos em que o silêncio se preenche de enredos tão subtis, que se desvanecem em segundos com um simples toque-toque de uns saltos altos.
Adoreia a descrição.

Beijos
MariaIvone

Wanderley Elian Lima disse...

Oi Lídia
Adorei a crônica. Realmente Biblioteca é, ou deveria ser, um templo onde só os livros conversassem entre si.
Bjux

AC disse...

Uma biblioteca é um lugar especial, daqueles em que, se sentirmos o silêncio, a transcendência vem ao nosso encontro e leva-nos...
Mas nada resulta quando o ruído se insinua, esse corpo estranho alheio à magia das palavras...

beijo :)

Fogo e Noite disse...

E em silêncio antes de ir embora:

"Com muito cuidado para não fazer barulho levantou-se e pôs-se a espreitar
escondido entre duas pedras. E viu um grande polvo a rir, um caranguejo a rir,
um peixe a rir e uma menina muito pequenina a rir também. A menina, que
devia medir um palmo de altura, tinha cabelos verdes, olhos roxos e um vestido
feito de algas encarnadas. E estavam os quatro numa poça de água muito limpa
e transparente toda rodeada de anémonas. E nadavam e riam."
Sophia de Mello Breyner Andersen

"A vida é a infância da nossa imortalidade." Goethe

Um beijo com risos e sorrisos de criança ;)

Ana Echabe disse...

Tem chá verde com torta de limão e presente pra vc
Embrulhados com coração.
Bjinhos.

Parapeito disse...

ler nunca devia ser uma obrigação..mas antes uma adoração :)
tambem detesto o som prepotente de uns saltos :)
brisas mansas para ti*

Cristiane disse...

Lídia, obrigada pela visita! E eis que aqui também encontro o seu encontro com os livros,numa biblioteca.Lugar que requer silêncio e delicadeza nos gestos. Bjks :)