
Uma vez, uma das minhas professora, com a agressividade própria de quem bate, atirou-me esta frase - “não se vem ao mundo para sonhar “.
Eu teria uns onze ou doze anos e nunca mais a esqueci. Confesso que, ao longo da vida, a repeti para mim mesma, algumas vezes, sem nunca lhe ter achado um sentido plausível.
A causa prendia-se com a minha falta de atenção na sua aula de ciências da natureza.
Vendo-me com os olhos postos na janela, a encolerizada senhora começou a desfiar um rol de acusações num tom tão grave e exaltado que me paralisou. Lembro-me de que, apesar do esforço, não consegui conter as lágrimas nem arriscar uma explicação.
Era uma "bruxa" que me queria fazer decorar as suas palavras mortas e cortar as raízes vivas da curiosidade que pulsava dentro de mim.
Ela não sabia nem podia saber que, naquele ramo da árvore do jardim estendido até à janela, junto da qual me sentava, havia um ninho e dentro dele, ovinhos. Ela não sabia nem podia saber que a minha maior ânsia era ver nascer os passarinhos para semear no tempo da aula de ciências da natureza, uma “Ciência” que ela não queria ou não sabia ensinar porque, naturalmente, não tinha vindo ao mundo para isso.
Eu teria uns onze ou doze anos e nunca mais a esqueci. Confesso que, ao longo da vida, a repeti para mim mesma, algumas vezes, sem nunca lhe ter achado um sentido plausível.
A causa prendia-se com a minha falta de atenção na sua aula de ciências da natureza.
Vendo-me com os olhos postos na janela, a encolerizada senhora começou a desfiar um rol de acusações num tom tão grave e exaltado que me paralisou. Lembro-me de que, apesar do esforço, não consegui conter as lágrimas nem arriscar uma explicação.
Era uma "bruxa" que me queria fazer decorar as suas palavras mortas e cortar as raízes vivas da curiosidade que pulsava dentro de mim.
Ela não sabia nem podia saber que, naquele ramo da árvore do jardim estendido até à janela, junto da qual me sentava, havia um ninho e dentro dele, ovinhos. Ela não sabia nem podia saber que a minha maior ânsia era ver nascer os passarinhos para semear no tempo da aula de ciências da natureza, uma “Ciência” que ela não queria ou não sabia ensinar porque, naturalmente, não tinha vindo ao mundo para isso.
“Deus a tenha!”
34 comentários:
Lindo desabafo e todos nós acho, tivemos que fazer tanta bobageada na escola, coisas inúteis que não nos acrescentaram nada. Em contrapartida, poucos nos ensinaram a ver a vida como ela merece...beijos,chica
... e uma vez mais as minhas palavras não são suficientes para chegar às tuas. Hoje volto a "achegar-me" a ti com o coração e sei que compreendes.
Beijo.
Nossa, que verdadeira aula de sabedoria!Vi a cena e posso dizer: rendeu muitos frutos e estamos colhendo.
Beijos
É. Tem gente que foi marcado, e assim nos marca.
Amiga, um desabafo muito válido e valioso... Como disse a amiga Chica, quantas e quantas vezes não tivemos que decorar e redecorar coisas que nada nos acrescentaria... O importante é que os sonhos ja existiam e existem dentro do seu, do meu, do nosso eu interior, e eu daqui torço pra que você realize todos os seus mais profundos e sonhados sonhos... Deixo carinhos pra ti... Bjsss
cacetada! como ela pôde ter dito isso?!
p.s.: tem concurso de narrativas curtas acontecendo no um-sentir. vemk, confere e participa :)
beijos!
As memórias de infância perduram. Nada há mais belo que acompanhar o desenvolvimento dos passarinhos no seu ninho e a azáfama dos pais para que nada lhes falte.
Tenho em memória um excerto duma canção de infância:
..............................
Nunca se faça mal a um ninho,
À linda graça de um passarinho,
Que nos lembremos sempre também,
Dum pai que temos, da nossa mãe.
...............................
Bj amigo.
J
Lídia, uma história que me emocionou, consegui ver a cena da árvore, do ninho, da menina.
Lembrei da minha filha que no final do ano escolar, com 9 ou 10 anos, deu uma resposta na prova, que não tinha nada com o conteúdo, e quando a professora foi perguntar se o que ela respondia era possível, ela disse - quando sonhamos tudo é possível. A professora então me chamou e disse, mesmo não sendo aquela a resposta, via que ela podia passar de ano. Achei muito bonito da parte da professora, essa compreensão do aluno.
Ainda bem que você continuou sonhando, e nos fazendo sonhar, através da sua escrita.
abraço.
Talvez ela não tivesse vindo ao mundo para sonhar...eu vim, para sonhar e muito.
Obrigada pela partilha.
Hoje estou "encurralada" num quarto de Hotel no Fundão, furiosa com o estúpido dia que aqui passei. Vim eu fazer mais de 300km para ver lugares que não conheço e o tempo metereológico não ajudou nada...que raiva!!! Nem uma foto consegui fazer, com esta chuva forte e a neblina que se instalou.
Felizmente trouxe comigo o portátil e cá estou "ligada" ao resto do mundo.
Boa semana. Beijos
De uma outra forma vou dizer o que hoje sinto:
Casas há que habitam o meu subconsciente
Hoje estavam mesmo à frente
dos meus olhos
parei o carro e admirei-as
Aldeia histórica de Castelo Novo
ali estavam elas, lindas
quis captá-las com
a objectiva da máquina
os meus segundos olhos
mas...a chuva não permitiu
que raiva!!!
A neblina e a chuva
são os elementos que "hoje"
ilustram a paisagem.
...
e, a minha alma chora!
Lídia,
Ela não sabia o que tu sabias e nem quis saber... Como são grandes os pequeninos, não?
beijos, querida.
Querida Lídia...
A vida vale pelo muito que sonhamos e pelo pouco que podemos realizar. Não importa o tamanho dos sonhos , eles nos impulsionam e nos dão a perspectiva para ir adiante.
Lindo texto. Pena não podermos escolher a dedo as pessoas que passam por nós...
Beijos.
É uma pena como tem tanta gente que não carrega o aroma das flores dentro de si.
Um beijo terno e doce para ti, poetisa dos sonhos e da alma.
Boa semana com flores e cores.
A vida traçada a régua e esquadro em oposição com o seu pulsar...
Lídia, há aprendizagens dolorosas, que deixam sequelas...
"Deus a tenha"!
Beijo :)
Lidia,
Um desabafo de quem sente a vida com toda a sensibilidade.
Há ciências que não se ensinam...há sentimentos que não de desenham.
quase lembrando Pessoa..o mundo é para quem nasce para o conquistar, e não para quem sonha que o pode conquistar, ainda que tenha razão1
tu conseguiste.
bj
Isso acontece tanto e é uma pena que assim seja. Perde o aluno e perde o professor ao não poder olhar o que acontece ficando preso nas palavras que tem que ensinar e tentando aprisionar o aluno nelas também. Consegue com a maioria, infelizmente.
Beijos
Apetecia-me dizer um mundo de coisas, sobre isto que escreveu. Digo apenas que as crianças hoje reagem de modo diferente a professoras assim e tedem, ou a seguir os seu ensinamentos ou a alhearem-se da escola. Sem meio termo nem superação...
Beijo
Lidia,vim te agradecer a linda nteração lá no sementinhas e dizer que já está anexada ao texto.beijos,tudo de bom,chica
Gostei da leitura! E até me lembrou um episódio tambem desagradável quando era uma pequenina aluna na escola do Sitio da Nazaré!
Obrigada pela partilha;o)
***
Feliz semana****
Olá Lídia
Uma história de vida...
A insensibilidade de alguém que a devia ter.
Não sei viver sem sonhar...são parte de mim(os sonhos).
Bjs.
Cara Lídia,
infelizmente, há sempre quem ache que não se deve sonhar!
Felizmente, ainda há muita gente que quer sonhar!
abs
POIS É.... de Lídia Para Lídia
Elas próprias foram ensinadas assim.....duramente... sem lhes ensinar....antes...reprimir...e a na dureza da vida, não deixavam entrar os sonhos.
1 beijo eu Lídia Frade
Infeliz daquele que não sonha e maior ainda a infelicidade daquele que por não sonhar acaba por matar o sonhos dos outros...
Beijinhos e ótima semana, Lídia
"o mundo não é feito de sonhos
é feito de pedras
e sonhos"
beijo
Alguns não sabem nem sonham...
Abraço
Um desabafo muito bom. Um blog belissimo. Extraordinário. Estou lhe convidando a visitar o meu blog,muito simpl´rio, e se possivel seguirmos juntos por eles. Estarei grato esperando por vc, lá
Abraços de verdade
Absurdo dizer isso para uma criança. Que o DIABO a tenha!
Amém.
Parabéns, lidar com uma criança é preciso saber muito mais do q ensinar, é saber enxergar no olhar dela a bondade e a beleza do sentir.
Parabéns. Muito bom,eu amei.
Beijokas mil.
Mas é assim que muitos professores "motivam" os seus alunos.
Já vi pior, mas uma grande parte dos actuais é diferente para melhor.
Beijos, querida amiga sonhadora (sim, continua a sonhar sempre...).
Obrigado minha linda pela visita.
Beijokas mil.
Lídia
Quando voltamos lá, ao lugar onde todas as coisas foram em nós semeadas, encontramos pequenos retalhos como este. Olhando agora para eles, percebemos que foi por lá que deixámos muitos dos nossos sonhos pendurados, porque havia sempre ( como ainda hoje há, em todas as histórias bem contadas ), uma bruxa má ou um capitão gancho, prontos a aprisioná-los.
E muitos deles, nunca mais os veremos. Está diferente, agora, a nossa forma de sonhar...
Um enorme beijinho
Quem não sonha não vive, pois a vida é feita de pedacinhos de sonhos, que adoçam essa realidade as vezes amarga, outras vezes azeda...Texto pertinente, e focado nos cantadores de sonhos como nós!
Obrigada pela visita. Um abraço!
Deus a tenha alertado, a tempo, para a compreensão de que o sonho comanda a vida.
Beijo
AFF menina! Pobre criatura essa, que não pode viver seus sonhos, e que quis de alguma forma podar os dos outros... Lamentável!!! Sempre digo que a vida, não é um conto de fadas, mas é o conto daqueles que acreditam em sonhos possíveis.
Temos muito que aprender, temos muito que sonhar...
Muito bonita sua postagem!
Beijos flor!!!
Querida Lídia,
Vim a este post que não pude ler antes mas que sempre me chamou pela imagem da menina com duas flores no olhar. Adorei a história, verdadeira, de tantas meninas e me lembrei de um teatrinho que vi com os meus filhos quando eram pequenos e que era a história de um reinio onde o rei não deixava sonhar, era um reino triste. sem luz, até que apareceram alguns artistas, que quebraram as barreiras e tudo se iluminou e ganhou vida. A História tinha outros enredos e nuances e uma interacção muito interessante com o público infantil porque de repente a peça suspendia-se para que os artistas se sentassem junto das crianças e lhes perguntassem sobre os seus sonhos e se sonhavam.
A tua história é muito enternecedora, porque tinhas ali à tua frente a ciência viva e a professora só se importava em armazenar teorias mortas nas cabecinhas das crianças.
Adorei.
Emocionante e extraordináriamente bem escrita.
Beijinhos
Branca
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