segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Solidão

Narciso (1594-1596), por Caravaggio

Virá o dia em que deixaremos
de nos ver de nos ouvir
uns aos outros.
Em que emudeceremos
Perdidos
lá longe onde as nascentes se calam
e os musgos abrigam o frio dos seixos.
E nesse dia
tudo será como noutros dias.
Os rios continuarão
sua interminável viagem
para o mar.
O dia há-de preceder a noite
E a noite, o dia.
Os pássaros riscarão o céu nos voos habituais,
as plantas sorrirão
ao sol.
Tudo será como sempre foi.
Só nós saberemos
que ouvindo ficámos surdos,
que vendo ficámos cegos.
Só nós saberemos quantas estrelas
a bruma pode apagar
ao cair densa sobre os nossos ombros
Solitários.

27 comentários:

Pedro Gaivota disse...

Posso perder a beleza do arco-íris se cegar, o chilrear dos pássaros se ensurdecer mas apressar-me-ei a aprender Braille para que nunca me falte a beleza das tuas palavras.

Obrigado,

Pedro Gaivota

PS: Quando for grande, quero escrever assim ;)

Ana SSK disse...

Por enquanto, brilhemos.

UBIRAJARA COSTA JR disse...

Maravilhoso, minha amiga...
Hoje, especialmente, a solidão faz parada em meu coração, pois seria o aniversário de meu marido que, quanto mais tempo passa, mas sua ausência se faz presença,,,
Beijos...

Rogério G.V. Pereira disse...

Quando da minha janela, digo que me dói ver uma máquina a empurrar tudo e todos para um só lugar, sem saber que lugar é esse...
Encontro a resposta parcial neste teu poema
que afirma ser esse, um lugar de solidão
Ficando por responder
se da alma ou do coração...

(apenas coincidências de posts, aposto)

Anónimo disse...

Lídia, belíssimo! Que o amor se faça urgente então para que não sejamos indiferentes. Afinal, são tantas belezas nesta vida, a começar pelo teu poema.
Feliz 2011!
Beijos
Glória

josé carolina disse...

Lídia, é como se eu pensasse há muito tempo neste exato poema. Já vim tentar comentar algumas vezes, mas é muito íntimo. Você fez um poema em meu estômago.

Anónimo disse...

A gente se dá conta do abismo depois que cai.

Lindíssima mensagem, poema muito bem escrito!

Beijo.

E.A. disse...

"Só nós saberemos", pois é esse o peso da nossa lucidez.
Gostei muito, gosto sempre.
Um beijinho

chica disse...

Linda escolha, Lidia! beijos,tudo de bom,chica

Unknown disse...

tristemente encantador, o poema dói

beijo

Mª João C.Martins disse...

Lídia

Quero acreditar, que esse dia jamais chegará para todos. Quero acreditar que haverá sempre quem veja e quem oiça, porque se recusa a viver em perfeita escuridão. Serão esses os eternos guardadores de estrelas, os únicos que nunca deixarão de acreditar no brilho do céu quando as estrelas se reúnem.

Um beijinho minha amiga e obrigada pelo brilho que emanas.

Dilmar Gomes disse...

Lindo, cara amiga Lídia. Você é uma poetisa de mão cheia.
Um grande abraço.

Graça disse...

Só nós saberemos que, para lá da bruma, resistirão os poetas... como Tu! Adorei o poema.

Um beijo de carinho, Lídia, e que o Novo Ano se encha de poesia.

[Obrigada por todas as palavras de incentivo e pela companhia, no meu 'palco', ao longo do ano.]

AC disse...

Lídia,
O canto é profético mas, lá bem no fundo, essa é a solidão que não quer, que não queremos. E o poema - belíssimo, diga-se - acaba por ser um alerta. Mas, como em tudo, haverá ouvidos para todos os gostos.

Beijo :)

Cristina Fernandes disse...

E os pássaros riscam o céu na sua rota sempre sábia e profética...
Beijo grande Lídia e desejo-te um ano de 2011 cheio de poesia e muitas felicidades.
Chris

poetaeusou . . . disse...

*
Amiga
,
que as vagas de 2011,
te tragam um mar de saúde e
marés de coisas boas (se possível)
,
conchinhas de amizade,
,
*

Sempre disse...

"Solidão
Campo aberto
Campo chão
Tão deserto
Meu verão
Ansiedade
Meu irmão
De saudade"

E que o dia que sucede a noite, e a noite que sucede o dia, sejam imensamente preenchidos. Um Feliz 2011 e um sorriso carregado de carinho ;)

Runa disse...

Uma solidão tão bela e profunda que quase apetece ser solitário, no imenso rio dos teus versos.

Bjs

Runa

Lilá(s) disse...

Como sempre a beleza das palavras! encantadora poesia!
Beijinhos

JB disse...

Mensagem muito profunda, Lídia!
Repensar como ouvimos, como vemos e agir para tentar evitar a solidão, num mundo que, por vezes, parece cego e mudo...

lindíssimo poema! as suas palavras tocam-nos!

Beijinho

sideny disse...

Olá Lidia

Venho desejar umas boas entrdas em 2011.

beijinhos

P. P. disse...

O que dizer desta preciosa junção musical com a poesia e a imagem?
O que dizer de tão douta descrição da solidão - aquela que tão bem conheço?!

Excelente.

Feliz 2011 para si, familiares, todos os que lhe são queridos e aos leitores deste blogue.

Marinha disse...

Então, brilhemos e que nosso brilho produza vida.
Texto triste e instigador!
Um novo ano de gente que ouve e sente e fala e estende a mão e abre o coração.
Bjo

alma disse...

Lídia,

Há momentos que as palavras não têm cabimento. Apenas nos quedamos a sentir.

este é um momento que me levanto e te aplaudo.

bj

Anónimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
nydia bonetti disse...

Que dizer de um texto como este? Ler e reler. E sentir... Lindíssimo, Lídia. beijos.

lupuscanissignatus disse...

maravilhosa
peça de
filigrana


[entrelaça]