quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Banco de Jardim


Aquele banco de jardim, abrigado pela árvore
tem histórias p'ra contar.
Fala de pássaros, de ninhos, de meninos a brincar.

Fala de um velhinho
que reparte pelos pombos saquinhos de afeição:
migalhas da migalha à sua mesa.
São eles os seus amigos, é com eles que conversa.
Conta dos filhos ausentes, do lar, da solidão...

Depois vem o outono expulsar os passarinhos
Vem o inverno p'ra ficar eternamente...

Porém, uma manhã, de repente
os pássaros voltam a encher de vida os ninhos,
voltam os pombos, o sol e o riso dos meninos.

Mas algo se faz diferente, alguma coisa mudou.
À tarde, naquele canto sombrio, o banco jaz vazio.
O velhinho não voltou.

domingo, 26 de setembro de 2010

Janela

Como que tomada pelo absoluto de uma racionalidade concreta, não domino esta necessidade premente de VER.
Olho em redor: florestas acromáticas de argamassa, pedras inanimadas, metáforas que cortam a pele do verbo, uma sólida janela bem trancada e duas botas floridas, desconjuntadas a sussurrarem distância...
Fecho os olhos!
Todo o tempo de esperas se veste de passado.
Calço as botas... Nascem flores dos meus pés e eu parto à procura de um jardim.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Quadras


Sobe o Outono aos beirais
No seu chegar tão dourado
Para avisar os pardais
Que o Verão é terminado

O vento vem alvorado
Correndo sobre os quintais
Trazer rumores alados
Que prometem vendavais

E o quebranto do sol
Que aos poucos acontece
Inquieta o caracol
Enquanto o tempo arrefece

Há um lento adormecer
Na paisagem em mudança
É hora de recolher
A terra, enfim descansa

Prepara a tela o pintor
E o músico a batuta
O poeta busca a cor
No verso que não resulta


Lídia Borges

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Não sei dizer


Não sei dizer se é da luz adoentada
Que espia no rectângulo da janela

Se do ócio das horas discretas

Que passam sem se mostrar

Não sei dizer

Porque anoitecem horizontes

Neste dia acabado de nascer

Porque é triste o trinado das aves


Não sei dizer

Deste estar desabitado
Como um casebre isolado

Onde os sonhos vão morrer

Não sei
Não sei dizer

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Escola


A Escola está no corredor da morte. Foi condenada por incompetência na arte de "encher balões".

sábado, 18 de setembro de 2010

Bebido o luar


Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Pequenices" (da Xana)


De que cor são os meus olhos, Mãe?
Parecem da cor do mel!...

São de mel, sim senhor.
Pela doçura que têm
Muito mais que pela cor.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Instante

O som líquido no canto do rouxinol
aqui perto
a coroar o silêncio da tarde
embriaga
Cobre-me um céu cheio de azul inocente
e penso em ti

Cabes inteiro no enlevo do momento
e estás tão perto do meu abraço
que num simples gesto
poderia torná-lo real

Contudo o instante é só meu
e só para mim
é que canta o rouxinol


Lídia Borges

domingo, 12 de setembro de 2010

É domingo


É Domingo e o silêncio passeia-se calmamente pela rua


Há uma luminosidade estranha

caída à entrada deste Outono

que pinta cambiantes de luz e sombra

na monotonia da manhã


Subo ao sótão da minha determinação

e olhando daí por entre o tom ambíguo do ar

Que deprime e doura

Uma súbita incerteza me invade


Não sei se sonho ou se na minha irreverência

apenas finco o pé à Realidade


Lídia Borges




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Das mágoas...

Hoje
deixa que o dia se esgote
completamente
e fecha-lhe a porta
devagarinho

Assim os medos
com asas de negrume
não poderão entrar
nos teus sonhos
para os confundir
e estilhaçar
com a fúria e malvadez
nos seus olhos de morcego


Lídia Borges

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Flor

Jaz na berma de uma estrada que serpenteia pela encosta íngreme.
Vertical! Calcinada pelo calor excessivo e pela ausência castigadora de água, refugia-se na contemplação e no silêncio num desviver despojado de cor, abandonada a uma solidão digna.
Reparar nela foi como acordar de um sonho feito de jardins de lírios e rosas e perfumes e aves… Foi reencontrar a certeza de que tudo se transforma em pedra, pó e esquecimento às mãos ásperas de um tempo cruel.
Foi o bastante para fazer dela a “vedeta” da minha fotografia…

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Setembro


Já não sei inscrever-te
Nos sinais de luz e fogo
Doem as paisagens desertas
Na orla do olhar
Doem os rumores das flautas
Na folhagem das árvores
Em Setembro

Setembro
Outra vez a distância
E o vento seco a quebrar
Os galhos do sossego
Um voo a nascer
Nas asas da ausência

É tempo de colher
Silêncios maduros

E um desejo de verdes sorrisos
Que nem sei dizer
Enche já o cesto da vindima


Lídia Borges