terça-feira, 26 de abril de 2011

Recomeçar

Ouve  as papoilas  na aragem fresca da manhã.
Vê como proclamam a urgência de sacudir da pele
a bruma grave dos dias, os queixumes agudos das noites.

Os rios pacientes esperam ainda à tua porta.
Sabes por eles que é tempo de recomeçar,
de reescrever as folhas rasgadas às mãos do vento.
Abre as tuas mãos submissas e deixa que os dedos
se libertem do canto taciturno que os atam.

A qualquer momento  (re)nascerá o Sol,
ingenuamente, ignorando
o título de realeza que lhe quiseste dar
Irá retomar o seu lugar de astro vivificador
na ordem imutável do universo.
Será enfim, o Sol
não desejo,  nem enleio, sorriso, brilho ou beijo 
Apenas o Sol!

 E ouvirás os pássaros cantar de novo nas tuas janelas
e as flores hão-de encher de cor e perfume os jardins
os muros e os campos  da tua alma
E as fontes darão de beber a quem passar
a água fresca, o rumorejar da sua melodia
E as searas darão pão e poesia em cada espiga nascida.

A Terra continuará a cumprir os velhos rituais
que nos falam do tempo cíclico
das noites dos dias, dos fins e dos princípios,
das estações.
Das tormentas e das bonanças
De como se sucedem
e nos sucedem.

São as papoilas, na aragem fresca da manhã,
a chama que acende a cor nos teus olhos refeitos
Não as vês?

26 comentários:

chica disse...

Há os que não as veem, nem se dão conta que toda hora é a de recomeçar...LInDO! beijos,Ótimo dia,chica

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Este poema e esta imagem fez-me voltar atráz no tempo...uma menina feliz a correr na planicie do meu Alentejo...e aí o sol nascia todos os dias, pelo menos no meu peito, adorei como sempre és poesia.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

João de Sousa Teixeira disse...

Disse em Mar de Pão:

A seara de vento: Todos os ventos são bons à sua maneira. E todas as chuvas, e todos os sóis. O vento é também ar que se respira. A seara é a sua cama, o seu colchão de erva e palha estendido até onde se chama linha do horizonte, por mais não ser dado a ver. A brisa da noite é fresca como a água da fonte. Entranha-se nos ossos dos homens e no coração das espigas. Então a seara balança, ondula, qual bandeira de pão, tanto quanto a lua deixa perceber. De madrugada juntam-se-lhe as papoilas, tremendo. Na verdade sempre ali estiveram, mas só agora as suas pétalas deslumbram.

Beijinho
João

Zélia Guardiano disse...

Lindo, lindo, lindo, Lídia!
Demais!
As papoilas...
Abraço.

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, grande poetisa! Este poema é muito lindo!
Um grande abraço.

Mona Lisa disse...

Olá

As papoilas transmitem-me liberdade, simplicidade e força.

Li que são o símbolo da fertilidade, da ressurreição e do sonho.

Bjs.

Lilá(s) disse...

E elas são bem viviveis!...
Bjs

Rogério G.V. Pereira disse...

Sim, eu as vejo poeta
Pelo mesmo olhar com que tu as vês
Apenas me pergunto
e te pergunto
Porque tem a papoila
vida tão efémera
depois de colhida dessa Terra?

Mateus Medina disse...

Ah, se todos nós ouvíssemos mais a papoilas... =)

Mais uma vez, nos brindando com metáforas que são tão profundas, quanto belas.

bjos

Eva Gonçalves disse...

Que lindo poema, eu diria refrescante :) e que lembra que tudo passa e é cíclico, mas que são as flores vivas nos campos que nos enchem a alma e devolvem o sorriso... beijinho

Unknown disse...

Desculpe a minha ausência,estou voltando aos poucos!

Beijo meu.

AC disse...

Lídia,
Na grande roda da harmonia, a dimensão as coisas é sempre muito relativa. Até o efémero das borboletas pode desencadear ondas de crença e encanto.
Gostei muito!

Beijo :)

Sempre disse...

As papoilas...quem as não vê??? Simples, lindas e singelas...adoro-as...E daí-me olhos para as ver e (re)aprenderei a viver, assim é (re)nascer. De encanto, como sempre. Beijinhos ;)

Manuela Freitas disse...

Olá Lídia,
Depois de dias perdida na sombra, fez-me bem ler este teu poema...de facto há as papoilas que sempre aparecem para pintalgar os campos com o seu vermelho-sangue...de recomeço...de vida...
Beijos,
Manuela

Flor de Jasmim disse...

Lídia minha amiga
Lindo demais!!! Tendo o sentido que nele consigo interpertar... lamento que muitas pessoas não as vêm. Adorei.
Beijinho

A.S. disse...

Lídia,

Quanta beleza poética pode existir na simplicidade das papoilas! Quanto talento nas palavras que provocam tão fortes emoções...
Belissimo Lídia!

Beijos!
AL

angela disse...

São as coisas simples e belas que marcam nosso tempo na terra.
Lindo poema.
beijos

Celso Mendes disse...

Vejo a poesia que renasce a cada dia, cíclica e absoluta, entre papoulas, olhares e sóis registrada na tua escrita.

Impecável.

beijo.

Marta Vinhais disse...

E reescrevo-me nos aromas, na doçura da brisa e na suavidade da noite...
Surpreendendo-me sempre com a frescura da manhã...
Uma beleza de poema...
Obrigada pela visita...
Beijos e abraços
Marta

BF disse...

Precisamos tanto de recomeçar e andamos todos tão cegos. Lindo. Adoro Papoilas.

Um Beijo

licinia quiterio disse...

Muito belo, Lídia. Um prazer ler-te.
Beijos.

Anónimo disse...

Belo o ritual do dia descrito aqui por vc!

Grande beijo!

OceanoAzul.Sonhos disse...

E este vermelho papoila ilumina por certo os dias tristonhos e relembra campos e passagens de uma vida solicitando que recomecemos.
Abraço
oa.s

marlene edir severino disse...

Lídia,

O frescor do teu poema , como uma manhã,
feito o vento a rasgar as folhas...

Belo!

Um carinhoso abraço!

Marlene

Juliana Sphynx disse...

Estou de volta te seguindo!!
=D

Bom final de semana!!
=)

Anónimo disse...

lidia nao a conheco mas vim aqui parar ao seu blog...(pelas papoilas)amei o seu poema,lindo. obrigada pelo momento.