sábado, 28 de maio de 2011

artistas de rua

O timbre inefável das notas sobe repentinamente no ar, sobrepondo-se à agitação ruidosa da rua. Muitos passam sem parar, mas outros rodeiam a rapariga que toca.
Pálida, excessivamente magra, olhos tristes de um azul quase transparente, cabelo desalinhado e as mãos… As mãos longas e finas parecem querer quebrar-se a qualquer momento. Tira as notas do violino como quem colhe flores, numa delicadeza concentrada. Toca de cor, sem partitura. As cerdas do arco deslizam levemente nas cordas e o som que nos invade a alma é inebriante… Simplesmente belo! É uma música bucólica que, aos poucos, nos leva para longe das banalidade  que nos absorvem, dia-a-dia.
O encanto prevalece até ao soar da última nota.
Ouvem-se, então, umas palmas tímidas que a rapariga agradece com um sorriso de anjo.
O rumor da rua agiganta-se, mais irritante do que nunca, à medida que as pessoas se afastam. Fico, fico ainda a pensar por que motivo tantos jovens talentosos nunca passarão de promessas, nesta terra de cegos e surdos.
 E quando me aproximo…     
O estojo do violino, aberto no chão, mostra três moedas solitárias a lamentarem uma gritante evidência - arte e sensibilidade não valem uma sopa para enganar a fome, ao jantar.


Lídia Borges

20 comentários:

Anónimo disse...

Lindo texto, Lígia. Parabéns. Bom final de semana.Abraços.
Elzenir

Eva Gonçalves disse...

Triste realidade de muitas das nossas ruas e não só. Mas serão mais no nosso País,os jovens talentosos, que não passarão de promessas, sem condições de prosseguir estudos artístios... perante a indiferença dos que passam.

Paulo Francisco disse...

Lindo texto!
Sim, temos talentos sendo desperdiçados neste mundo de cegos, surdos e corruptos.
Um beijo grande

Catarina disse...

Uma lamentável realidade de muitas partes do mundo.
Estórias de sucesso são poucas.
Cirque du Soleil começou por ser um circo de rua... Hoje é um dos mais famosos circos a nível mundial.
Haverá violistas, guitarristas, cantores que talvez tenham alcançado algum sucesso... de momento, sei de nenhum... Mas sei que não uma ocorrência frequente. Bom fim de semana. : )

Rogério G.V. Pereira disse...

Acho que imagino a cena e esse tocar suave e melódico. Acho que as consigo ver, a si e a ela. Acho que consigo prever em cena seguinte a quarta moeda prefazendo a quantia mais que a exacta para um dia. Acho que ouvi o pizzicato agradecido, quase cantado e o seu afastar quase envergonhado pela impotência em fazer mais que esse feito. Acho que o sorriso que ficou no rosto dessa rapariga não foi de agradecimento, foi de gratidão pelo que lhe ia no coração.
Foi assim não foi?
Eu sei que foi...

OceanoAzul.Sonhos disse...

Lidia, que belíssimo texto sobre esta inegável realidade. São de facto muitos e bons os artistas que encontramos na rua e que passam despercebidos aos olhos da multidão, gente que apressadamente vive sem que a sensibilidade lhes diga muito.
Bjs
oa.s

AC disse...

Arte, por esta parte do mundo, parece ser recanto com preço demasiado alto a pagar. Mas, ainda assim, que bem que sabe ouvir uma nota que nos abriga do ruído de fundo...

Beijo :)

lis disse...

Oi Lídia
Uma crônica delicada e o quadro que descreve me faz lembrar outro poeta :
- " não sou bom Nem mau / sou delicado/ preciso ser delicado /porque dentro de mim mora um ser feroz e fraticida /como um lobo."
os sons de um violino lógico remete a momentos assim de delicadeza e imagino um artista de rua se isolando em si mesma em meio a multidão pra liberar seus sentimentos .Como uma ária de Mozart.
E aí que precisamos ter ouvidos e sentidos aguçados pra poder apreciar.
Penso que essas parcas moedas representem a corupção, a violência, a burocracia, os salários, as injustiças e os políticos que não deixam ninguém ser delicado e generoso.
Um forte abraço Lídia
Gostei imenso.
beijinhos

Mel de Carvalho disse...

"Fico, fico ainda a pensar por que motivo tantos jovens talentosos nunca passarão de promessas, nesta terra de cegos e surdos."

Minha(permita-me) boa amiga Lídia:
tenho de sublinhar cada palavra que deixa neste tão singelo e assertivo texto. Por todas as razões óbvias e mais uma, de que me orgulho sobremaneira: sou mãe de um artista de rua... músico também, mas, essencialmente um artista do chapitô, multifacetado. Todos os dias me interrogo pelo seu futuro, e, simultâneamente me bendigo por nunca, independentemente do que possa vir a acontecer, lhe ter condicionado as escolhas, lhe ter apoiado, com dor, tantas vezes, o percurso...

Belo, Lídia. Beijo daqui, Bom domingo
Mel

Anónimo disse...

.

.

. ao domingo de manhã . evadem.se promessas porque a segunda.feira não é nossa .

.

. um beijo meu .

.

. paulo [intemporal] .

.

.

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Belo texto minha amiga uma realidade!!!
Infelizmente temos por todo o mundo grandes talentos que acabam por não seguirem seus dons por falta de oportuanidade e não existe uma mão que os ajudem a dar um passo em frente.
Beijinho

E.A. disse...

Lídia,

Reconheci na menina que toca violino os artistas que às vezes escuto quando passeio na baixa da cidade. E, de todas as vezes, é o mesmo que sinto.

John Doe disse...

Estou em dias de ver realit shows de de gente sem talento que chega a me doer aalma, é triste ver o tanta gente que tem a arte correndo em suas veias esquecidas por ai a fora quando gente sem nenhum talento chama atenção em cadeia nacional sem motivo algum...

Cristina Fernandes disse...

E em cada pedaço desse som de violino corre um mar acesso de vida... belíssimo o teu texto, parabéns!
Bjs
Chris

Unknown disse...

A arte anda pela rua da amargura...Lindo texto.

Beijo.

João de Sousa Teixeira disse...

A inconstância dos dias (em todos os sentidos…) “faz” destas coisas.
É uma narrativa um tanto kitsch, não?
Se abrir a janela do último post poderá ver, por exemplo, um poema assim:

Naquele dia o velho búzio
emergiu do oceano
desenhando círculos no espelho da água
e a praia cobriu-se
duma espessa e incorruptível bruma

naquele dia o velho búzio
não era mais que uma crisálida de névoa
em vésperas de música

Beijinho
João

Virgínia do Carmo disse...

Lídia, belo e comovente testemunho. Como os sons melancólicos de um violino.

Beijinho

Mateus Medina disse...

"arte e sensibilidade não valem uma sopa para enganar a fome, ao jantar."

É triste, mas é verdade na maioria das vezes.

Enquanto isso, alguns "pseudo-artistas" fazem rios de dinheiro com as suas "pseudo-artes".

No entanto, isso reflete os gostos da população em geral, e infelizmente, reflete o que a humanidade prefere...

Esse tipo de artista do qual falas, não costuma mesmo ter o devido valor, o que é uma grande pena...

Sempre disse...

A realidade tão crua e nua. Uma sensibilidade tocante em acordes de violino. Beijinhos ;)

Mª João C.Martins disse...

Lídia

Quando nos detemos sobre os detalhes à nossa volta, são estas as reflexões que nos surgem. Interrogações, dúvidas e indignações que, para além de nos inquietarem, nos ajudam a ver o mundo de uma outra forma.
O talento é um dom que brota de um lugar que todos têm, mas que poucos descobrem. Quando se materializa é arte, uma arte que "não tem preço" dizem... talvez por isso não a valorizem. As parcas moedas que viste, foram deixadas, decerto, por compaixão e não por recompensa de um momento único e especial.
Um arrumador de carros, receberia muito mais.

Temos tanto para aprender.... ou reaprender...

Um beijinho e obrigada. mais uma vez e sempre!!