quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Destes dias...


Destes dias
há o sol que se apaga
nas folhas dos limoeiros.
Há a pele rugosa da água
nos vidros onde a noite pousa,
timidamente.
Nenhum abandono corre,
porém,
no caudal lento das horas.
Que não se engane o relógio
no seu hábito de marcar a noite
no mesmo espaço do dia.
É de sal a terra, de sal e bruma
e as raízes abrem sulcos profundos
para se libertarem da sede.

Destes dias, algumas palavras de água
nos dedos. Poucas.
É este um tempo adverso à delicadeza
da pele.
Anunciam-se gestos em revoadas
para espantar as fadigas no limiar
do outono.
O vento aceso semeia cintilações
Na pulsação destas sílabas sem teto.

26 comentários:

chica disse...

Lindíssima e profunda tua inspiração em mais essa poesia...Linda imagem também! beijos,chica

Unknown disse...

"é este um tempo adverso à delicadeza da pele", aqui me quedo



beijo

rosa-branca disse...

Belo, nostálgico e delicioso texto minha amiga. Amei demais. Beijos com carinho

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, lendo o teu poema, fiquei pensando na diversidade dos climas, o que dá sentido ao todo e quebra a monotonia, caso houvesse uma uniformidade climática no mundo. Então enquanto tu falas no outono, é primavera na América do Sul, mas aqui em Porto Alegre, sul do Brasil, o inverno voltou e está muito frio, sendo em algumas cidades da região metropolitana como Gramado, por

End Fernandes disse...

Caramba, que legal esses versos! =]
É bom observar enquanto tudo se movimento, devagar.
End Fernandes
...

Mateus Medina disse...

Com a certeza de estar me repetindo, continuo encantado com a sensibilidade e maestria como poetizas a natureza...

Fantástico!

bjos

Armando Sena disse...

Destes dias somos feitos. Da fresca água que nos vem lembrar que os ciclos das emoções têm paralelo no interminável ciclo das estações do ano.
Que belo texto este que nos embala no movimento da água a escorrer pelo vidro da janela.
Adorei Lídia.

JP disse...

Poema de uma sensibilidade notável. Mas as estações do ano tem todas o seu encanto....O Outono também!

E sabem bem as palavras de água nos dedos.

Beijinhos

Andradarte disse...

Belo texto....Um lindo poema...
Beijo

Sílvia Mota Lopes disse...

Mais um fabuloso como tu sabes escrever:)
beijinho

Mona Lisa disse...

Belíssimo poema!

Senti a nostalgia do Outono da vida!

Beijos.

UBIRAJARA COSTA JR disse...

Sem teto, mas imensamente lindas!

Beijos

Rogério G.V. Pereira disse...

Se acreditasse
que o Outono fosse mais que uma estação
tomaria teu poema como oração

Mar Arável disse...

Belíssimo poema

no anúncio

de não menos belos relâmpagos

Bj

Teresa disse...


Na adversidade valham-nos ao menos os Poetas que sabem descobrir o inverso do tempo adverso.
Nas suas Searas por mais adverso que seja o estado do tempo e "o sol se apague nas folhas dos limoeiros." A delicadeza sempre achará forma de o fazer brilhar de novo...
Hoje procurava um poema assim!

Obrigada Poeta!

Everson Russo disse...

Cenas do cotidiano dos sentimentos...de todos os suspiros guardados,,,lembranças...flores e cores.....beijos e uma bela noite pra ti amiga...

marlene edir severino disse...

E desses dias
de palavras de água nos dedos
nascem
tantas delicadezas!

Beijos!

Thuan Carvalho disse...

Quando não houver teto, haverá a chuva nos cabelos.

[carícias de palavras de água!]


;*

OceanoAzul.Sonhos disse...

Sempre tão aconchegante passar aqui Lidia, as suas palavras reconfortam, mesmo quando nos transportam à nostalgia.
beijos
cvb

Duarte disse...

Sou do Douro Litoral, mas como se fosse MINHOTO, são terras que me atraíram sempre, fortemente!

O tema que elegeste, belo, inspirou-me assim...

Chove lá fora... melancolia!

Cinzentos que matam o dia.

Caminhos, de versos e ilusões,

enlevo! fruto das emoções.



Contemplo os vermelhos telhados,

Espelhos, quando molhados,
de gotas que deixou o dia,
sons abafados, qual melodia!

Com um abraço de amizade

manuela barroso disse...

Todas as cintilações do outono na pulsação ritmada destes extraordinários versos desta belíssima poesia!
Muitos bjis

BL disse...

"É este um tempo" de renovar
as tintas e os gestos
de um tempo suspenso
no limiar da sombra.

Beijinho, Lídia :)

Graça Sampaio disse...

Bela receção à chuva e ao outono! Até no ritmo - muito bom!

Beijo

AC disse...

A Lídia mostra, com talento, que a poesia tem que se comprometer quando, à sua volta, tudo vai ruindo sob o uivar dos coiotes.

Beijo :)

Domingos Barroso disse...

as sílabas sem teto
alcançam céus infinitos
...


beijo carinhoso,
Lídia.

Mª João C.Martins disse...


Confundem-se no mesmo leito, por estes dias, as palavras e os silêncios, como se os dias não tivessem nem sol nem lua e tudo à nossa volta anunciasse a mais espessa noite na mais espessa bruma.

Belíssimo o teu poema!

Um beijinho