Volto aos gatos porque, à história com final infeliz que aqui trouxe, preciso agora de acrescentar um novo capítulo.
Primeiro foi o ar feliz, algo enigmático.
Não estranhei. Havia
por detrás desse olhar o brilho de quem, depois de uma tortuosa viagem, chega a
“casa”, cansado, mas com a alma enrolada naquela sensação boa de um dever
cumprido, de um sonho realizado.
Brinquei com a aparência
de felicidade meio enternecedora meio apalermada.
- Não é só isso – confidenciou-me – há outra coisa.
E estendeu-me a “carta”, uma folha de caderno
dobrada em quatro. Mistério!
Não fosse a tranquilidade e a ternura que lhe transbordavam do rosto e eu teria ficado preocupada.
Desdobrei a folha:
Olá
Lídia
(…)
Tenho três meses e estou há um mês à espera de alguém que me queira. Em breve
serei grande demais para ser adotado e o hospital que me acolheu enviar-me-á
para a “cerca”, uma instituição onde provavelmente morrerei de solidão e
tristeza, vendo o céu, o vento, a chuva através das grades de uma jaula. A
minha madrinha escolheu-me porque sou muito meigo e preciso de uma pessoa doce
como tu que cuidará de mim e me amará incondicionalmente. Não tenho pulgas. Sou
saudável e forte. Ontem fui vacinado e desparasitado. Compraram-me um enxoval completo
para que só tenhas o trabalho de me amar. Com muito carinho foram escolhidos os
brinquedos, a cama, o wc, os cobertores… Sou da cor da areia e tenho olhos de
mar, límpidos e brilhantes…
Interrompi a leitura,
olhei-a confusa não querendo entender, não querendo “entregar os pontos”, pois
tinha decidido que não me apaixonaria levianamente, outra vez. Ela explodia de ansiedade,
levantou-se dirigindo-se ao carro estacionado, ali perto.
Voltei à carta:
A
minha madrinha quer que tomes conta de mim. Ela não quer ver-te triste. Não
quer que chores e encarregou-me de encher a tua casa de alegria. Vou tentar
fazê-lo mesmo sendo um bebé abandonado, um enjeitado que teve a sorte de te
encontrar. Preciso muito de ti e a minha madrinha, que te ama muito, acha que tu
também precisas de mim. Vai ser muito bom fazer parte da tua família…
Um ronrom do
David
Não houve tempo para
mais nada. A mala transportadora que o carregara por algumas dezenas de
quilómetros estava ali à minha frente e em dois tempos tinha-o no colo.
Mais nada!
Quanto ao nome, desculpa
minha querida Anna, mas “David” foi rejeitado por maioria, cá em casa. Desculpa-se-lhes
a indiferença quanto ao poeta, ao profeta, à personagem mítica…
aceita-se “Lucas” nome de romancista (da “novíssima” geração, autor de Perfeitos Milagres), de profeta, de
gato…
Tenho a casa cheia de
correrias loucas. O Lucas é tão rápido que esteve para se chamar Bolt ou Obikwelu.
Penso que já assumiu
o papel de estrela da “festa”.
Um imenso obrigada,
Anna pela “terapia de choque” como lhe chamaste. Vai resultar!
21 comentários:
Empolgante isso. Que beleza de terapia! Ana foi maravilhosa e não podias deixar de te apaixonar por ele. Lindo!! beijos,boas brincadeiras e correrias! chica
Enterneci-me...
Lídia, acho que estou a precisar do mesmo tratamento de choque. Mas com um cão.
Que o Lucas tenha chegado em boa hora!
Beijo :)
que ternura!
eu tenho um que é Gaspar.
um bom fim de semana.
um beij
Só os amigos sabem fazer estes tratamentos de choque, :))
Tão lindo o "Lucas". Tenho a certeza que vai ser muito feliz no novo lar e que fará uma terna companhia.
Beijos de alegria por vós.
Tu sabes porque escolhi David... Há nomes na vida que nunca mais esquecemos...
Ainda bem que estás feliz! E sabes que aparecerei aí em casa para matar saudades do meu afilhado e para ver o teu sorriso feliz :)
Beijo
Acho que uma carta assim me comovia e convencia...
(sou um fraco, e... já lhe falei no meu Gato)
Que delícia de chegada... alegrará mais ainda os seus dias e versos...
Beijo carinhoso.
Olhe só posso fazer um largo sorriso.
enternecedor, serve para amenizar a parida do Rucas, e Lucas fica muito be.
bom fim de semana.
um beijo
Quem poderia ficar indiferente?
No verão, levaram um cão pequenino a casa dos meus pais. Eu - confesso, envergonhada - que não tenho o mínimo jeito para animais (embora os respeite e até lhes ache graça) e que,no momento em que ele chegou, estava sozinha em casa, fiquei sem saber o que fazer. Um pouco a medo, peguei nele e, o mais depressa que pude, levei-o para o quintal, para junto dos gatos, contudo não tive coragem de o deixar, porque ele só tremia. Levei-o, então, comigo para a varanda, onde me sentei a fazer-lhe companhia. Acabei por ganhar um amigo canino, simpático e doido. :)
Bom domingo. Beijinho
Que bonito!
Lucas é mais bonito sim senhora!
Bom domingo.
Fiquei de lágrimas nos olhos!
Que seja muito feliz o Lucas e que vos traga muitas alegrias!
Abraço
que belo,
beijo
Que bom Lídia! Um Lucas cheio de sorte. Amor tem de certeza e ele também te vai amar:)
beijinho grande amiga
Há madrinhas fantásticas e gatos com muita sorte...
Da carta, do gesto e do teu colo, falaremos depois :)
Um beijinho grande
voltei aqui para ver o Lucas.
quem resiste a estes olhos?
uma boa semana.
beij
Lindo Lucas.
Maravilhosa terapia.
Que "festa" continue por muito tempo.
Um beijo Lídia.
Maravilha! foi assim cá em casa há cerca de um ano quando as lágrimas continuavam caindo ás escondidas depois da morte da gatinha de 14 anos...uma semana depois apareceu Linus, o salvador...não substitui mas ajuda tanto!
Bjs
Oi Lídia
Daqui a mais uns dias e estarás totalmente rendida, tal como estou. rs
É doce ,amoroso e silencioso_anda como se tivesse luvas nos pés.
Um encantamento!e é fofo o Lucas hem?
Sempre resulta bem!
abraços
Há lá melhor companhia do que a de um gatinho carente!... E logo, logo, se transformam em donos da casa... Mas são tão fofos, tão meiguinhos, tão quentinhos...
enternecedora a história,
também passei por algo parecido e foi uma terapia assim, que me ajudou :)
e afinal eles merecem!!
Beijo grande!
Enviar um comentário