sábado, 20 de outubro de 2012

Amigos são como flores abertas em pleno deserto...



Volto aos gatos porque, à história com final infeliz que aqui trouxe, preciso agora de acrescentar um novo capítulo.

Primeiro foi o ar feliz, algo enigmático.
Não estranhei. Havia por detrás desse olhar o brilho de quem, depois de uma tortuosa viagem, chega a “casa”, cansado, mas com a alma enrolada naquela sensação boa de um dever cumprido, de um sonho realizado.
Brinquei com a aparência de felicidade meio enternecedora meio apalermada.
- Não é só isso – confidenciou-me – há outra coisa.
 E estendeu-me a “carta”, uma folha de caderno dobrada em quatro. Mistério!
 Não fosse a tranquilidade e a ternura que lhe transbordavam do rosto e eu teria ficado preocupada.
Desdobrei a folha:

Olá Lídia
(…) Tenho três meses e estou há um mês à espera de alguém que me queira. Em breve serei grande demais para ser adotado e o hospital que me acolheu enviar-me-á para a “cerca”, uma instituição onde provavelmente morrerei de solidão e tristeza, vendo o céu, o vento, a chuva através das grades de uma jaula. A minha madrinha escolheu-me porque sou muito meigo e preciso de uma pessoa doce como tu que cuidará de mim e me amará incondicionalmente. Não tenho pulgas. Sou saudável e forte. Ontem fui vacinado e desparasitado. Compraram-me um enxoval completo para que só tenhas o trabalho de me amar. Com muito carinho foram escolhidos os brinquedos, a cama, o wc, os cobertores… Sou da cor da areia e tenho olhos de mar, límpidos e brilhantes…

Interrompi a leitura, olhei-a confusa não querendo entender, não querendo “entregar os pontos”, pois tinha decidido que não me apaixonaria levianamente, outra vez. Ela explodia de ansiedade, levantou-se dirigindo-se ao carro estacionado, ali perto.
Voltei à carta:

A minha madrinha quer que tomes conta de mim. Ela não quer ver-te triste. Não quer que chores e encarregou-me de encher a tua casa de alegria. Vou tentar fazê-lo mesmo sendo um bebé abandonado, um enjeitado que teve a sorte de te encontrar. Preciso muito de ti e a minha madrinha, que te ama muito, acha que tu também precisas de mim. Vai ser muito bom fazer parte da tua família…
Um ronrom do
David

Não houve tempo para mais nada. A mala transportadora que o carregara por algumas dezenas de quilómetros estava ali à minha frente e em dois tempos tinha-o no colo.

Mais nada!

Quanto ao nome, desculpa minha querida Anna, mas “David” foi rejeitado por maioria, cá em casa. Desculpa-se-lhes a indiferença quanto ao poeta, ao profeta, à personagem mítica… aceita-se “Lucas” nome de romancista (da “novíssima” geração, autor de Perfeitos Milagres), de profeta, de gato…
Tenho a casa cheia de correrias loucas. O Lucas é tão rápido que esteve para se chamar Bolt ou Obikwelu. 
Penso que já assumiu o papel de estrela da “festa”.

Um imenso obrigada, Anna pela “terapia de choque” como lhe chamaste. Vai resultar!


21 comentários:

chica disse...

Empolgante isso. Que beleza de terapia! Ana foi maravilhosa e não podias deixar de te apaixonar por ele. Lindo!! beijos,boas brincadeiras e correrias! chica

AC disse...

Enterneci-me...
Lídia, acho que estou a precisar do mesmo tratamento de choque. Mas com um cão.
Que o Lucas tenha chegado em boa hora!

Beijo :)

BeatriceMar disse...

que ternura!
eu tenho um que é Gaspar.
um bom fim de semana.
um beij

Branca disse...

Só os amigos sabem fazer estes tratamentos de choque, :))
Tão lindo o "Lucas". Tenho a certeza que vai ser muito feliz no novo lar e que fará uma terna companhia.

Beijos de alegria por vós.

Anna disse...

Tu sabes porque escolhi David... Há nomes na vida que nunca mais esquecemos...
Ainda bem que estás feliz! E sabes que aparecerei aí em casa para matar saudades do meu afilhado e para ver o teu sorriso feliz :)

Beijo

Rogério G.V. Pereira disse...

Acho que uma carta assim me comovia e convencia...

(sou um fraco, e... já lhe falei no meu Gato)

Teté M. Jorge disse...

Que delícia de chegada... alegrará mais ainda os seus dias e versos...

Beijo carinhoso.

Vítor Fernandes disse...

Olhe só posso fazer um largo sorriso.

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

enternecedor, serve para amenizar a parida do Rucas, e Lucas fica muito be.

bom fim de semana.

um beijo

deep disse...

Quem poderia ficar indiferente?

No verão, levaram um cão pequenino a casa dos meus pais. Eu - confesso, envergonhada - que não tenho o mínimo jeito para animais (embora os respeite e até lhes ache graça) e que,no momento em que ele chegou, estava sozinha em casa, fiquei sem saber o que fazer. Um pouco a medo, peguei nele e, o mais depressa que pude, levei-o para o quintal, para junto dos gatos, contudo não tive coragem de o deixar, porque ele só tremia. Levei-o, então, comigo para a varanda, onde me sentei a fazer-lhe companhia. Acabei por ganhar um amigo canino, simpático e doido. :)

Bom domingo. Beijinho

Isabel disse...

Que bonito!
Lucas é mais bonito sim senhora!
Bom domingo.

Rosa dos Ventos disse...

Fiquei de lágrimas nos olhos!
Que seja muito feliz o Lucas e que vos traga muitas alegrias!

Abraço

Unknown disse...

que belo,


beijo

Sílvia Mota Lopes disse...

Que bom Lídia! Um Lucas cheio de sorte. Amor tem de certeza e ele também te vai amar:)
beijinho grande amiga

Mª João C.Martins disse...


Há madrinhas fantásticas e gatos com muita sorte...

Da carta, do gesto e do teu colo, falaremos depois :)

Um beijinho grande

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

voltei aqui para ver o Lucas.

quem resiste a estes olhos?

uma boa semana.

beij

Ana Oliveira disse...



Lindo Lucas.
Maravilhosa terapia.
Que "festa" continue por muito tempo.

Um beijo Lídia.

Lilá(s) disse...

Maravilha! foi assim cá em casa há cerca de um ano quando as lágrimas continuavam caindo ás escondidas depois da morte da gatinha de 14 anos...uma semana depois apareceu Linus, o salvador...não substitui mas ajuda tanto!
Bjs

lis disse...

Oi Lídia
Daqui a mais uns dias e estarás totalmente rendida, tal como estou. rs
É doce ,amoroso e silencioso_anda como se tivesse luvas nos pés.
Um encantamento!e é fofo o Lucas hem?
Sempre resulta bem!
abraços

Graça Sampaio disse...

Há lá melhor companhia do que a de um gatinho carente!... E logo, logo, se transformam em donos da casa... Mas são tão fofos, tão meiguinhos, tão quentinhos...

Maria João Mendes disse...

enternecedora a história,

também passei por algo parecido e foi uma terapia assim, que me ajudou :)

e afinal eles merecem!!

Beijo grande!