Saímos, cúmplices, deixando para trás o calor da lareira, o gato, as filhas (ainda tão nossas), a mãe…
Saímos,
com o único propósito de sentir a cidade, de andar a pé pelas ruas, agora
que a noite cai sobre as horas da tarde em vésperas de Natal.
Levamos
uma alegria quase infantil. As luzinhas coloridas acendem-se nos sítios do
costume mas parecem um tanto desmaiadas, não obstante o céu carregado de chuva, em fundo,
que lhe deveria acentuar o brilho (ou não?). Pergunto
se somos nós a roubar-lhes o fulgor que lhes falta e tu respondes apertando mais o
meu braço conta o teu peito.
Atravessamos as ruas e
ruelas do centro e, aos poucos, o entusiasmo que pusemos na “fuga” vai-se esbatendo.
É impossível não ver...[...]
Um
velho magro e mal agasalhado numa cadeira de rodas a sugar uma ponta de cigarro
apertada entre os dedos e outro mais velho ainda, curvado no esforço de empurrar a
cadeira, cruzam-se connosco. Não sei se nos vêem, não nos olham apesar de quase se esbarrem connosco, ao passar. Para onde irão?
Reparamos que há mais pedintes nas esquinas e os
lugares que outrora foram pontos de encontro e alegre convivência estão agora desertos. As
pessoas de rostos enfiados nos casacos, nos cachecóis circulam sem pressa, como se não tivessem aonde ir. Há uma soturnidade
[quem te chamou agora aqui, Cesário?] húmida e gélida que nos quer devorar e, lentamente, dissipa-se a exultação que buscávamos. Do espírito de
Natal remanesce apenas, nesta ou naquela decoração, um solitário e indelével desejo
de existência.
Paramos
a observar as lágrimas luminosas que caem incessantemente das pequenas árvores
em fila. Iluminações originais sem dúvida, mas é o pranto das árvores que oiço,
quando os devaneios do vento e do tempo trespassam os ossos dos transeuntes, e secam-lhes carnes e sonhos. É por isso que as árvores choram!
Há algum tempo que não saíamos assim à procura da nossa cidade e o que encontramos vai-se apequenando diante de nós.
Há algum tempo que não saíamos assim à procura da nossa cidade e o que encontramos vai-se apequenando diante de nós.
Com o tempo aprendemos a olhar as coisas de outro modo, bem o sabemos, mas… Mesmo assim!... Este
amontoado de roupas velhas, estes sacos sujos tão cheios de nada, estes cartões no chão, estes homens e mulheres abrigados, sem abrigo, nos claustros da rua do Castelo... Que olhos suportam tal desumanidade?
Quase sem nos apercebermos, vamos caindo para dentro de nós. Calamos palavras
inúteis, a braços com a difícil tarefa de desatar o nó que se vai formando na garganta.
E o
Natal afigura-se-nos agora mais exíguo, mais triste, mais ausente...
Percorremos
o caminho de retorno escorraçados pelo vento e por uns pingos grossos de chuva que começa a cair.
No calor das mãos dadas guardamos, como um tesouro, a inestimável alegria de existirmos juntos.
De quantas mãos precisamos para dar sentido ao Natal?

27 comentários:
Lídia, eram preciso tantas mãos, que não existem no universo. É impossível ficar alheio a tanta miséria, a tanta fome e a tanta solidão. Ninguém merece tal sina. Passei para lhe desejar um Feliz Natal com muita saúde, paz e muito amor. Beijos com carinho
Te digo... te digo
Precisamos das mãos dos sem-abrigo
Seu texto é o outro lado do meu...
Minha querida
Um tema que nunca se esgotará...infelizmente cada vez mais presente na nossa sociedade.
O Natal é só para alguns.
Feliz Natal com amor e paz junto de todos que ama.
Um beijinho com carinho
Sonhadora
Para desejar, como que "pessoalmente", um Feliz Natal!
tua escrita cativa.
Um Feliz Natal
BShell
Lindo ,tão reflexivo e cheio de verdade... Que tenhamos um FELIZ NATAL! beijos,chica
DEixando os meus votos de um Santo e FEliz natal com cheiro a caruma e a musgo na magia que nos cabe ter :)
beijinho amigo
Que 2013 possa trazer um pouco mais de justiça social, equilíbrio e harmonia na nossa sociedade!
Passo para te ler e te desejar um Natal...talvez como este que descreves, porque é impossível ignorar, porque é esse que está no nosso coração apesar das luzes, porque na hora certa até nos sentiremos aconchegados em família, mas lá no fundo ficará um silêncio onde outras sombras nos acompanham.
É sinal que estamos vivos e atentos à realidade. Por isso te desejo um Bom Natal neste espírito fraterno e de luz, para ti e toda a família, um Natal com a paz de um amor cumprido dia após dia, que sei continuarás a cumprir no dia 26, porque pessoas como tu têm um Natal todos os dias e sempre serão recompensadas por isso, em muitos momentos da vida.
Beijos amigos, sempre.
Branca
Ofereço-te as minhas mãos, Lídia... Para que guardes entre as tuas no calor da palavra "Natal".
Um beijo
A cidade e o Natal estão cada vez mais pobres e tristes...
Magnífico texto, gostei.
Lídia, minha querida amiga, tem um bom fim de semana e um Bom Natal, extensivo aos que te são mais queridos.
Beijo.
Amiga querida!!! Trago também meus votos de muita PAZ, SAÚDE e AMOR para este seu fim de ano e começo do outro NOVO TEMPO.
Que tudo de melhor lhe possa vir.
Um grande abraço
Fiquei emocionada de ver sua presença em minhas páginas...
Que nunca lhe doam as mãos
Belíssimo texto
Tudo pelo melhor
Eu acho que damos sentido ao Natal com o bem que fazemos ao longo do ano.
Um bom Natal com a família.
Um beijo
Isabel
A Avé Maria de fundo é tão linda, que nem apetece fechar o blogue, para ficar a ouvir.
eis o mundo, como disse Drummond fiquemos de mãos dadas,
beijo
Feliz Natal, Lidia!
Abraco amigo.
Olá, caríssima, como está?
Venho expressamente desejar-lhe um Bom Natal!
Um abraço.
Um poema de Natal em
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com
Que pases unas felices fiestas llenas de alegría.
Buen fin de semana,
¡Feliz Navidad!
un abrazo.
Tudo tão próximo...
Como se deambulasse na mesma cidade de braço dado com esse modo de olhar diferente.
Que posso desejar-te que não saibas já?
Bom Natal, Lídia!
Um beijinho
Oi Lídia
Comungo dos mesmos sentimentos de mãos vazias pelo mundo afora,
que possamos emprestar as nossas àqueles que nos rodeiam e juntos criarmos a força que manterá vivo o espírito de um Natal mais digno e justo,
um abraço e meu afeto
Feliz noite de Natal ,junto aos seus.
Lídia,
Nestes conturbados tempos, até o Natal precisa ser reinventado.
Feliz Natal!
comovente e real...
impossível não reparar!
e uma lágrima teimosa me cai.
um beijo
Há Natais que nos fazem estremecer - como o daqueles que não podem viver o Natal que guardamos da infância.
Muito bonito, Lídia.
Beijinho.
De muitas mãos. De todas as mãos. E tantas vezes tenho a sensação que ainda seriam poucas...
O mais usual é fingirmos que não vemos, para que possamos seguir em frente, fugindo de reflexões como essa...
bjos
Olá td bem/ Final de ano chegando
ao fim, vamos deixar o que é ruim
ficar la atrás, e deixar novas amizades fluir nas nossas vidas.
Vim te visitar deixar meu abraço
parabenizar por tudo, e dizer que
tenho prazer em ser sua amiga
Abraços com carinho
Rita!!!
http://cantinhovirtualdarita.blogspot.com.br/
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Lindíssimo texto! Tão poético!
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