quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

À boca de cena

                                                                           duy huynh 

Lidos os jornais, embolam-se-me as ideias na boca. Que querem? Não tivesse eu bebido só água e…
A chuva lá fora, descarta-se rapidamente da poesia. Não passa de decoração dispensável e o frio, cá dentro, vem da falta de uma porta de saída desta sórdida realidade: o caos travestido de ordem.  
Tento escrever. Abro o meu caderno e a página que devia ser branca e lisa como sempre é, toma-se de obscuras tonalidades, de rugosas texturas.  
Um lodaçal autêntico, gente que passa abstracta, sombras, medos, desassossegos, ameaças, algas que se entrelaçam, contorcido desespero e, de repente, um crocodilo aberrante sai, em corrida desenfreada pelo caderno afora. A cauda viril, ameaçadora, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. - Monstro – cogito - quem te deu aqui entrada?
 Em lágrimas, o malvado, ri de mim, grosseiro, pleno de impenetrabilidade e falsa sensaboria.

E, para além desta negra página, deste crocodilo, nenhum outro animal, palavra ou frase se
adivinha nas folhas do meu caderno, hoje, depois de lidos os jornais.
Fecho-o devagar, ainda na esperança de ver sair de dentro dele, um caçador de crocodilos bem equipado. Mas não!

Música! A música é sempre um lugar seguro. Inacessível, (por enquanto), a crocodilos invasores dos domínios alheios. Ligo o aparelho – Chopin!
Entre reflexões despropositadas penso que talvez devesse procurar uma loja de consertar pensamentos ou, até, indo mais longe, comprar um novo mecanismo de pensar, mais actualizado, mais em conformidade com os tempos que correm. Disseram-me que aqueles que já actualizaram o seu softwar pensante, pensam agora que, para melhor viver, o melhor é não pensar. Incorporaram em si uma espécie de dispositivo anestesiante, indolor e muito confortável.

Gosto tanto desta música. Nem triste nem alegre. Música apenas com a evidência da vida pelo meio: o caos e um crocodilo enorme a destruir tudo, à sua passagem.
Da janela vejo as árvores trémulas, tristes… - Porque estais tristes? - Não sabem a resposta. E, só de não saberem a resposta, parecem-me ainda mais tristes.

 Esta música!.. Vou ouvi-la até que me entre na circulação do sangue e me invada, de rompante, o coração, vivificando-o. É preciso um coração vivo quando, à solta, perto de nós, há um crocodilo cruel para abater.

Não, caro leitor! Nada disto é ficção. Não lhe disse já que é real a falta de uma porta para fugir à realidade? Impossível continuar a jogar às escondidas com ela.
Sonhar, é agora um delírio por demais palpável e, um delírio nestas condições, perde a insubstancialidade que o nomeia.




14 comentários:

JP disse...

Olá Lídia,
Não há caçador de crocodilos, nem bem nem mal equipado, mas há a música que nos leva ao encontro dessa porta que não encontras....mas ela está lá:)


Beijinho

Pérola disse...

A música é linda e as palavras belas.
Uma sinfonia muito bem conseguida.

Beijinho

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

mas eu não quero perder o prazer e a ousadia de sonhar...

beijo

;)

Unknown disse...

Eu queria comentar este Post, mas as palavras secaram as minhas mãos de indignação por tantos desvarios.

Venderam e hipotecaram o meus pais.
Roubaram-lhes as cores da esperança.
Pobre país onde alguns comem e outros sofrem os amargos de boca.

Rogério G.V. Pereira disse...

Há textos que são retratos de estados de alma, depois de escritos (ou lidos) a alma se acalma...

Há textos que são libelos, acusam o estado de tudo e do mundo, e depois de expostos os termos, ficam no ar julgamentos...

Há textos que são panfletos, argumentam, empolgam e apelam à realidade, e depois esperam que a rua se junte e o mal se apague...

Há textos que são pensamentos e depois de escritos (ou lidos) ficamos pensando no que houver que pensar...

Há textos que desarmam porque de tudo o que há escrito ou por escrever parecem ter excedido o que se podia prever...

O que me deste, poeta, foi tudo isso, em formato reduzido... mas denso...

...e depois fica Chopin, nem alegre nem triste... e não sei para que lado se me encaminha o sentimento.

Flor de Jasmim disse...

Arrepia!
É comovente esta realidade, este teu grito Lídia, contigo gritarei.

beijinho e uma flor

Maria João Brito de Sousa disse...

há portas, Lídia... três portas apenas esboçadas mas, sem dúvida, possíveis de alcançar e transpor. Uma delas é a da morte precoce, para a qual vamos sendo empurrados sem que muitos de nós tenham, sequer, consciência de o serem. Outra é a da alienação, pela qual tantos vão optando quando acreditam que o crocodilo é apenas ficcionado. Outra só pode ser aberta por muitos... ninguém a poderá atravessar sozinho. Ninguém.
Nem mesmo as árvores.

"Armados, desarmados, como seja/ próprio ao desenrolar desse momento..."

E fico embalada nestas palavras e na música, "À Boca de cena". Fico, fico, fico... porque nenhuma porta será atravessada por um só... ou por dois, ou por três...


Beijo grande...

Rui Pascoal disse...

Sonhar... ainda é possível!

Mona Lisa disse...

Fugir da realidade é utopia.

Vou sonhando, pois não viver sem o fazer...

Beijos.

Lilá(s) disse...

Contagiante este grito, luto com todas as forças para não perder a capacidade de sonhar...não ma podem destruir assim...
Maravilhoso texto, reflecte bem a revolta que sentimos.
Bjs

Armando Sena disse...

"É preciso um coração vivo"...e uma alma ardente.
Belo ensaio, a prometer mais.
Bjs,
AS

José Pedro Viegas disse...

eu sei que vais tornear o crocodilo, bailar ao som da musica e tonificar a alma e o coração. Sabes fazê-lo melhor que ninguém.

Mª João C.Martins disse...


Há pássaros que se embalam em Chopin e esvoaçam, denunciando silêncios, alegrando as árvores. Não, nem todas as portas se fecham quando existe nas mãos um caderno e um coração livre para anunciar novas paisagens.

Um beijinho, Lídia

ana disse...

Brilhante. Todavia, pergunto será o caos travestido de ordem?
Beijinho e parabéns!