duy huynh
Lidos os jornais, embolam-se-me as ideias na boca. Que querem? Não tivesse eu bebido só água e…
A
chuva lá fora, descarta-se rapidamente da poesia. Não passa de decoração dispensável e o
frio, cá dentro, vem da falta de uma porta de saída desta sórdida realidade: o caos travestido de ordem.
Tento
escrever. Abro o meu caderno e a página que devia ser branca e lisa como sempre é, toma-se de obscuras tonalidades, de rugosas texturas.
Um
lodaçal autêntico, gente que passa abstracta, sombras, medos, desassossegos, ameaças,
algas que se entrelaçam, contorcido desespero e, de repente, um crocodilo
aberrante sai, em corrida desenfreada pelo caderno afora. A cauda viril, ameaçadora, da
direita para a esquerda, da esquerda para a direita. - Monstro – cogito - quem
te deu aqui entrada?
Em lágrimas, o malvado, ri de mim, grosseiro,
pleno de impenetrabilidade e falsa sensaboria.
E,
para além desta negra página, deste crocodilo, nenhum outro animal, palavra ou
frase se
adivinha nas folhas do meu caderno, hoje, depois de lidos os jornais.
adivinha nas folhas do meu caderno, hoje, depois de lidos os jornais.
Fecho-o
devagar, ainda na esperança de ver sair de dentro dele, um caçador de
crocodilos bem equipado. Mas não!
Música!
A música é sempre um lugar seguro. Inacessível, (por enquanto), a crocodilos invasores
dos domínios alheios. Ligo o aparelho – Chopin!
Entre
reflexões despropositadas penso que talvez devesse procurar uma loja de
consertar pensamentos ou, até, indo mais longe, comprar um novo mecanismo de
pensar, mais actualizado, mais em conformidade com os tempos que correm.
Disseram-me que aqueles que já actualizaram o seu softwar pensante, pensam agora que, para melhor viver, o melhor é não pensar. Incorporaram em si uma espécie de
dispositivo anestesiante, indolor e muito confortável.
Gosto
tanto desta música. Nem triste nem alegre. Música apenas com a evidência da
vida pelo meio: o caos e um crocodilo enorme a destruir tudo, à sua passagem.
Da
janela vejo as árvores trémulas, tristes… - Porque
estais tristes? - Não sabem a resposta. E, só de não saberem a resposta, parecem-me
ainda mais tristes.
Esta música!.. Vou ouvi-la até que me entre na
circulação do sangue e me invada, de rompante, o coração, vivificando-o. É
preciso um coração vivo quando, à solta, perto de nós, há um crocodilo cruel para
abater.
Não,
caro leitor! Nada disto é ficção. Não lhe disse já que é real a falta de uma
porta para fugir à realidade? Impossível continuar a jogar às escondidas com
ela.
Sonhar,
é agora um delírio por demais palpável e, um delírio nestas condições, perde a
insubstancialidade que o nomeia.

14 comentários:
Olá Lídia,
Não há caçador de crocodilos, nem bem nem mal equipado, mas há a música que nos leva ao encontro dessa porta que não encontras....mas ela está lá:)
Beijinho
A música é linda e as palavras belas.
Uma sinfonia muito bem conseguida.
Beijinho
mas eu não quero perder o prazer e a ousadia de sonhar...
beijo
;)
Eu queria comentar este Post, mas as palavras secaram as minhas mãos de indignação por tantos desvarios.
Venderam e hipotecaram o meus pais.
Roubaram-lhes as cores da esperança.
Pobre país onde alguns comem e outros sofrem os amargos de boca.
Há textos que são retratos de estados de alma, depois de escritos (ou lidos) a alma se acalma...
Há textos que são libelos, acusam o estado de tudo e do mundo, e depois de expostos os termos, ficam no ar julgamentos...
Há textos que são panfletos, argumentam, empolgam e apelam à realidade, e depois esperam que a rua se junte e o mal se apague...
Há textos que são pensamentos e depois de escritos (ou lidos) ficamos pensando no que houver que pensar...
Há textos que desarmam porque de tudo o que há escrito ou por escrever parecem ter excedido o que se podia prever...
O que me deste, poeta, foi tudo isso, em formato reduzido... mas denso...
...e depois fica Chopin, nem alegre nem triste... e não sei para que lado se me encaminha o sentimento.
Arrepia!
É comovente esta realidade, este teu grito Lídia, contigo gritarei.
beijinho e uma flor
há portas, Lídia... três portas apenas esboçadas mas, sem dúvida, possíveis de alcançar e transpor. Uma delas é a da morte precoce, para a qual vamos sendo empurrados sem que muitos de nós tenham, sequer, consciência de o serem. Outra é a da alienação, pela qual tantos vão optando quando acreditam que o crocodilo é apenas ficcionado. Outra só pode ser aberta por muitos... ninguém a poderá atravessar sozinho. Ninguém.
Nem mesmo as árvores.
"Armados, desarmados, como seja/ próprio ao desenrolar desse momento..."
E fico embalada nestas palavras e na música, "À Boca de cena". Fico, fico, fico... porque nenhuma porta será atravessada por um só... ou por dois, ou por três...
Beijo grande...
Sonhar... ainda é possível!
Fugir da realidade é utopia.
Vou sonhando, pois não viver sem o fazer...
Beijos.
Contagiante este grito, luto com todas as forças para não perder a capacidade de sonhar...não ma podem destruir assim...
Maravilhoso texto, reflecte bem a revolta que sentimos.
Bjs
"É preciso um coração vivo"...e uma alma ardente.
Belo ensaio, a prometer mais.
Bjs,
AS
eu sei que vais tornear o crocodilo, bailar ao som da musica e tonificar a alma e o coração. Sabes fazê-lo melhor que ninguém.
Há pássaros que se embalam em Chopin e esvoaçam, denunciando silêncios, alegrando as árvores. Não, nem todas as portas se fecham quando existe nas mãos um caderno e um coração livre para anunciar novas paisagens.
Um beijinho, Lídia
Brilhante. Todavia, pergunto será o caos travestido de ordem?
Beijinho e parabéns!
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