domingo, 24 de fevereiro de 2013

Correntes d' Escritas


A um menino que encontrei, única criança entre adultos, no segundo dia das Correntes d’Escritas, 
onde, rodeados de tulipas, nos sentimos calorosamente acorrentados às ideias, ao pensamento livre, às palavras…

Era só uma criança. 
Não sei se mais alguém reparou nela.
Eu vi-a e ela viu-me.
 Trocámos olhares sérios:
os dela indagadores; 
os meus de compromisso.



Não me perguntes nada, agora
Não me peças um poema ou uma história.
Não tenho ainda respostas para te dar
Conto ou poesia que te possa agradar.

Não os ouves  dissertar:
A poesia não é movida, mas move
A palavra é uma arma
Podia ser flor não fosse terrivelmente hostil
O meio que nos cerca.

Fecha os olhos, menino
Encosta a cabeça ao braço
E o braço à parede. Começa agora a contar
Um… dois… três…
Dá-nos tempo. Há uma luta para travar.

Já soam ao longe os tambores.
Presta atenção:
A Poesia assusta-os. Fá-los estremecer.
A eles. Sabes quem são?
São os carcereiros do sol
barricados do outro lado do arame farpado.

Continua a contar. Dá-nos tempo…
Há um mar de ventos encurralados
Um barco em espera atado ao momento de zarpar
E uma velha ideia de vida para consertar.
Dá-nos tempo. Há um punhado de traços a fervilhar
Queremos esboçar um mapa mais nítido
Para o teu caminhar.

Conta menino. Continua a contar.
Quando te voltares não quero ter de me esconder
Não quero que me embarace nada do que houver
 para te dizer.

A história que me pedes, a mais bela de se contar
Falará de um povo que de novo se libertou
Por suas mãos calejadas esvaziadas de pão.
Falará de um poema arrancado à terra fustigada
mas nunca, nunca domada pelos que pensam mandar
no reino das coisas que ninguém pode amordaçar:
o pensamento, o coração, a razão ou uma ave a voar.


Já podes deixar, menino,  teu sorriso subir à tona
Dos teus olhos de azeitona nesse rosto limpo e moreno
Que sereno é já o nosso encontro
Neste Encontro de Poesia e de livros
Onde as vozes, borboletas ou abelhas
Nos dizem não haver sonhos proibidos
Nem presídios para as ideias.

Conta, conta, menino!...


Até nos tempos em que o terror
viveu paredes meias com o homem,
a dignidade se revelou indelével presença.

(Uma afirmação de Ana Luísa Amaral
que registei, mais vírgula, menos vírgula)


  


16 comentários:

Anónimo disse...

Tão doce, e tão lindo.

Beijinhos e bom domingo.

Ana

Agulheta disse...

Adorei a poesia libertadora que envolveu a minha alma.Se o menino tomou atenção,será um jovem que tentará libertar a inquietude que aflora a todos neste momento.
Beijinho

Flor de Jasmim disse...

Profundo, é um hino minha querida
Lídia.

beijinho e uma flor

P. P. disse...

Tocante!

Maria disse...

Tocante.
Não consigo comentar, nem escrever mais nada.
Chovo.

Beijo.

JP disse...

A palavra é uma arma e com elas se fazem as poesias....que assustam quem não conhece o valor das palavras.


Beijinho

Sandra Subtil disse...

No mínimo Excelente!
Adorei.
Beijinhos

Unknown disse...

desses encontros é que se faz vida em verso,


beijo

Mateus Medina disse...

Lindo, muito lindo.

Não há mesmo presídio para as ideias. Não há mesmo limites para a beleza do que nos apresenta...

beijos

Armando Sena disse...

E a conclusão só pode ser uma, tão bom como ler, ouvir e contar, é escrever.
Beijo

Manuel Veiga disse...

cativante poema - como os sonhos no olhar de uma criança...

beijos

Rogério G.V. Pereira disse...

Neste dia
fui "pequenino"
Não te importas
que me sinta eu
esse menino?

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

terno e cativante....

boa semana!

beijos

Laços e Rendas de Nós disse...



Voltaremos a ser!

Não podemos trair o sorriso, os "olhos de azeitona" e o "rosto limpo e moreno" do(s) nosso(s) menino(s).

Voltaremos a ser palavra, coração, razão!

Beijo

Laura

Isa Lisboa disse...

Que a contagem chegue ao último número...!

beijo

Rui Pascoal disse...

Lindo!!!