A um menino que encontrei, única
criança entre adultos, no segundo dia das Correntes d’Escritas,
onde, rodeados de tulipas, nos sentimos
calorosamente acorrentados às ideias, ao pensamento livre, às palavras…
Era
só uma criança.
Não sei se mais alguém reparou nela.
Eu
vi-a e ela viu-me.
Trocámos olhares sérios:
os
dela indagadores;
os meus de compromisso.
Não
me perguntes nada, agora
Não
me peças um poema ou uma história.
Não
tenho ainda respostas para te dar
Conto
ou poesia que te possa agradar.
Não
os ouves dissertar:
A poesia não é movida, mas
move
A palavra é uma arma
Podia
ser flor não fosse terrivelmente hostil
O
meio que nos cerca.
Fecha
os olhos, menino
Encosta
a cabeça ao braço
E
o braço à parede. Começa agora a contar
Um…
dois… três…
Dá-nos
tempo. Há uma luta para travar.
Já
soam ao longe os tambores.
Presta
atenção:
A Poesia assusta-os. Fá-los
estremecer.
A
eles. Sabes quem são?
São os carcereiros do sol
barricados do outro lado do arame farpado.
Continua
a contar. Dá-nos tempo…
Há
um mar de ventos encurralados
Um barco em espera atado ao momento de zarpar
E uma
velha ideia de vida para consertar.
Dá-nos
tempo. Há um punhado de traços a fervilhar
Queremos
esboçar um mapa mais nítido
Para
o teu caminhar.
Conta
menino. Continua a contar.
Quando
te voltares não quero ter de me esconder
Não
quero que me embarace nada do que houver
para te dizer.
A
história que me pedes, a mais bela de se contar
Falará
de um povo que de novo se libertou
Por
suas mãos calejadas esvaziadas de pão.
Falará
de um poema arrancado à terra fustigada
mas
nunca, nunca domada pelos que pensam mandar
no reino das coisas que ninguém pode amordaçar:
o pensamento, o coração, a razão ou uma ave a voar.
Já
podes deixar, menino, teu sorriso subir à tona
Dos teus olhos de azeitona nesse rosto limpo e moreno
Que
sereno é já o nosso encontro
Neste
Encontro de Poesia e de livros
Onde
as vozes, borboletas ou abelhas
Nos dizem não haver sonhos proibidos
Nem
presídios para as ideias.
Conta, conta, menino!...
Conta, conta, menino!...
Até nos tempos em que o
terror
viveu paredes meias com o
homem,
a dignidade se revelou indelével
presença.
(Uma
afirmação de Ana Luísa Amaral
que
registei, mais vírgula, menos vírgula)

16 comentários:
Tão doce, e tão lindo.
Beijinhos e bom domingo.
Ana
Adorei a poesia libertadora que envolveu a minha alma.Se o menino tomou atenção,será um jovem que tentará libertar a inquietude que aflora a todos neste momento.
Beijinho
Profundo, é um hino minha querida
Lídia.
beijinho e uma flor
Tocante!
Tocante.
Não consigo comentar, nem escrever mais nada.
Chovo.
Beijo.
A palavra é uma arma e com elas se fazem as poesias....que assustam quem não conhece o valor das palavras.
Beijinho
No mínimo Excelente!
Adorei.
Beijinhos
desses encontros é que se faz vida em verso,
beijo
Lindo, muito lindo.
Não há mesmo presídio para as ideias. Não há mesmo limites para a beleza do que nos apresenta...
beijos
E a conclusão só pode ser uma, tão bom como ler, ouvir e contar, é escrever.
Beijo
cativante poema - como os sonhos no olhar de uma criança...
beijos
Neste dia
fui "pequenino"
Não te importas
que me sinta eu
esse menino?
terno e cativante....
boa semana!
beijos
Voltaremos a ser!
Não podemos trair o sorriso, os "olhos de azeitona" e o "rosto limpo e moreno" do(s) nosso(s) menino(s).
Voltaremos a ser palavra, coração, razão!
Beijo
Laura
Que a contagem chegue ao último número...!
beijo
Lindo!!!
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