terça-feira, 7 de maio de 2013

Para que enfim te encontrasses

                                                                                                                                                Pakayla Biehn


Para que enfim te encontrasses
partiste. Rompeste fronteiras
mutilaste rios e montanhas
atravessaste bosques e densas madrugadas
rasgaste voos impossíveis em paredes maciças 
inventaste fontes e pontes  
nos lugares onde a água ria ou chorava. 

Nessa demanda de ti
julgaste que em algum momento,
num instante intocável como eco urgente
te descobririas nu,  demónio ou anjo.

Mas, a cada passo, te vias barro,
massa informe, disforme, matriz em negação.
Julgaste que de tanto observar os animais
serias mais humano, mais perfeito, mais irmão.

Mas não!
Brotaste pedra, na margem errada da lágrima
e a tua humanidade era uma jangada a naufragar.
Por fim, perdido nos desvios de ti, a ti te revelaste 
dramaticamente só e  inacabado. 

O sol arde-te nos olhos. 






19 comentários:

Silenciosamente ouvindo... disse...

Gostei muito deste seu poema.
A música também gostei.
Tudo perfeito.
Desejo esteja bem.
Um beijinho
Irene Alves

Thuan Carvalho disse...

Quando terminei de ler o texto e li abaixo "SEM COMENTÁRIOS", tive que concordar com a ironia do destino.

Este texto está, indiscutivelmente, dispensando os comentários.

Magnífico, sou apaixonado por essa forma de escrever.

abraços e agradecimentos!

chica disse...

Linda poesia! beijos,chica

JP disse...

Nessas demandas nunca sabemos as margens erradas ou as margens certas...

Beijinho

P. P. disse...

Tragicamente delicioso.
Bjs

vida entre margens disse...

Que dizer, quando a luz nos ofusca o olhar!!
Simplesmente brilhante e estrondoso!

Beijinho muito amigo...grata por este momento de bela Poesia!!!

Flor de Jasmim disse...

É nestas demandas que nos sentimos como naufragos.
boa semana querida

beijinho e uma flor

Rogério G.V. Pereira disse...

Surpreendes-me poeta
Tinha, para mim,
Que gente assim
Não parte de si
Não se procura
Não se escrutina
na alma nua, verdade tão crua

O sol arde-lhe nos olhos?
Como?, se falas de gente cega...

Ou não?

Rogério G.V. Pereira disse...

Esqueci de dizer que teu poema meu deu outra forma de olhar... de ver pedras brotadas, nas margens erradas das lágrimas

Pérola disse...

Uma viagem interior sempre necessária.

beijo

O Puma disse...

Nada é perfeitamente inútil

até nos desertos
há pedras com vida por dentro

Mateus Medina disse...

" Por fim, perdido nos desvios de ti, a ti te revelaste
dramaticamente só e inacabado "

Ótimo, Lídia. Fantástico.

Um retrato da nossa humanidade, da nossa eterna construção e da nossa sempre existente porção de solidão.

Humanos, todos nós.

bjos

Unknown disse...

este partir para encontrar-se: incessante busca


beijo

Laços e Rendas de Nós disse...


Porque todas as palavras foram usadas, saio em silêncio...

Beijo

Laura

Maria João Brito de Sousa disse...

Uma longa e magnificamente narrada viagem, Lídia.


Abraço grande!

Primeira Pessoa disse...

arde, também, no jeito de olhar.

beijão,

r.

Maria João Mendes disse...

a luz é demasia para quem se acha centro.


gostei imenso do poema,

Beijo

Mª João C.Martins disse...


Ser "jangada a naufragar" em tantos mares por navegar, só pode ser cegueira de quem morre com o leme inteiro nas mãos. Mas existe, felizmente, quem da crua realidade assim escreva, para que as pálpebras não desistam de proteger os olhos de poeiras.

Obrigada!
Um beijinho,querida Lídia!

lis disse...

É como cantou Eugenio de Andrade em
Epitáfio:
' barcos ou não/arde na tarde/no ardor do verão/todo rumor é ave/
voa coração /ou entao arde.'

muito muito lindo Lídia