quinta-feira, 16 de maio de 2013

(Re)leituras - «Aparição»

                                                                                                                                                 Imagem google


Li, pela primeira vez, o Aparição de Vergílio Ferreira (publicado em 1959), ainda em contexto escolar e não me lembro de que me tenha sido particularmente marcante, naquela altura. Mais tarde, quando o revisitei, passei a considerá-lo um romance-ensaio obrigatório no âmbito da literatura portuguesa do século XX. Hoje, que terminei mais uma  leitura da obra (não sei se a terceira ou a quarta), já não me interessa nada refletir sobre o Existencialismo de Sartre ou  Kierkegaard, as teorias filosóficas que confrontam o homem com o deserto do céu,  a «morte de Deus» (expressão de Nietzche), a liberdade que o homem  tem de agir, criando-se a si próprio, assumindo-se como único responsável pelos atos que pratica já que nenhuma "natureza/essência" lhe é dada à priori). 
Não me apetece refletir sobre as angústias do homem, sobre o  seu projecto/desejo de se tornar Deus. Nada disto me "tocou" desta vez. Mas algo mais profundo anda por aqui a "remoer"; palavras que soam no cérebro ou na alma, (não sei bem) como alguma coisa urgente que me faltava, como uma revelação - assim o diz Vergílio Ferreira, emprestando a voz ao narrador:


Sinto, sinto nas vísceras a aparição fantástica das coisas, das ideias, de mim, e uma palavra que o diga coalha-me em pedra. Introdução pp.9/10

Diante de mim uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto, e vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. p. 70

Sinto-me só e nu, escapado ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... p.269  

A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros p.11


15 comentários:

Isabel disse...

Gosto muito da escrita do Vergílio Ferreira. Já li vários livros dele, mas este ainda não li.
Há anos que não o leio. Fiquei com vontade de pegar noutro livro...

Bom fim-de-semana!

deep disse...

Este é um dos "meus" livros. :)

Beijo

JP disse...

Eita Lídia que hoje viraste filósofa....:))

Estou a bricar.

Também, como tu, li esta obra quando fui obrigado na escola. Lembro-me que não gostei nada. Os amores e reflexões de Alberto Soares, os amores e desamores de Sofia, e isso que trazes aqui e bem, o existencialismo eram temas que se nos prendiam e levavam na aventura, até Évora e outras paragens, também não nos motivavam muito para a leitura.

Hoje já tenho outra visão. Mas as angústias da existência humana continuam a não me fascinar muito. Não nesta altura do campeonato....:)

Um Beijo

vida entre margens disse...

Por mais reflexões que se façam sobre a vida...o que importa mesmo, é realçar e reafirmar a importância da individualidade e liberdade do ser humano.
Nenhuma verdade é absoluta e, Vergílio Ferreira também disse:
"O melhor de uma verdade é o que dela nunca se chega a saber"...

Belo romance, a que também só dei valor já em fase adulta, e não no tempo de leitura obrigatória, enquanto adolescente, fase em que somos donos de todas as certezas...

Abraço!

perhaps disse...

O super homem de Nietzshe não exprime o desejo de que o homem se torne Deus. Em meu entender, claro. Exprime o desejo de um homem diferente, que é si mesmo sem a muleta divina. E, nesse sentido, de ser um superhomem.

Gostei tanto da Aparição quando a li a primeira vez! e a 2ª. E a 3ª. E sempre. Porque em Vergílio Ferreira não se morre nunca. Os seus livros são como a terra: fecundos.
Um obrigada por trazê-lo à memória.

Unknown disse...

muito bom


beijo

Daniel C.da Silva disse...

O espírito faz-se presença. Muitos vezes o nosso próprio espírito, refém da razão cega...

Gostei muito do post.

Beijo amigo

Rogério G.V. Pereira disse...

"A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros."

Meu Contrário leu e Minha Alma com ele trocou um sorriso para de seguida me segredar: pudesses tu escrever tão bem e podias ser tu a escrever o que acabaste de ler...

Anna disse...

Maravilhoso, o Vergílio Ferreira. Li toda a sua obra e a "Aparição" sei-a de trás para a frente de tantas vezes que a lecionei aos alunos! Nunca a considerei adequada a jovens de 17 anos, sobretudo quando leem muito pouco... É uma obra densa, cheia de sumo e de inquietudes...
Belíssimos, os excertos que selecionaste!
Gosto, gosto, gosto!

Beijo, saudades... :)

Sandra Subtil disse...

Até me sinto mal a dizer isto, mas ainda não li. Ainda...Fiquei fascinada com o que li aqui.

( sorri com o comentário do Rogério, pois pensei nele quando li a citação da pág. 11)


Beijinho

Cadinho RoCo disse...

Gostei do que li.
Cadinho RoCo

Pérola disse...

Duma intensidade que desarma.

Já nãoleio Virgilio Ferreira há tanto tempo...

Tenho de o revisitar.


beijinho

Graça Sampaio disse...

«Apaixonei-me» pela escrita de VF quando li a sua Conta-Corrente. Depois li (quase) tudo de enfiada. Muito bom!

ana disse...

Lídia,
Gosto muito de Vergílio Ferreira. Tenho alguns livros dele que muito aprecio.
Li este livro quando frequentei o liceu, se calhar está na hora de o revisitar.
Um beijo e grata pela partilha. :)

Catarina disse...

Há livros e autores que são intemporais... há outros que marcaram uma época e aí ficaram...