quarta-feira, 19 de junho de 2013

Metamorfoses

Vladimir Kush

Liberta-se, desenrola-se
abandona o casulo de sombras
alonga o corpo dorido. Estende as asas
[imperceptíveis]
Ousa, por fim, descerrar as pálpebras.

Exclui os pássaros.
Demasiado reais, os pássaros!
Além do mais:
estava morto aquele
com que o gato o brindou
pela manhã. Irónica ternura.

[Nada mais terrível para um coração vivo
- um pássaro morto!]
E o voo em pânico precipita-se
da árvore mais próxima para o abismo.
Insustentável!

Peixes mudos ocupam o lugar dos pássaros 
e o mergulho, o lugar do voo.
Avidamente afloram no avesso das palavras
bolhas e bolhas de silêncios condensados
frios de tão azuis.

Descansa a respiração suspensa
num espaço em branco entre estrofes
escapando ao afogamento,  
reaprendendo a fala, afinando a voz...

Coisas necessárias, enquanto não for capaz 
de respirar por guelras.






19 comentários:

chica disse...

Li,reli e me extasiei. Lindo demais,Lídia! Consegues te superar sempre! Parabéns! beijos,chica

Anónimo disse...

Gosto muito da poesia que escreve, das publicações que faz neste blog.
A analogia neste poema, provoca os sentidos, e é um prazer ler, partilhar, imaginar.

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

gostei do surrealismo do poema.
por breves momentos fez-me lembrar a escrita do nosso amigo mar arável.
muito bem...

:)

Sandra Subtil disse...

É urgente que os pássaros reaprendam a voar.
Belíssimo!!!

beijinho

Pérola disse...

Metamorfoses nas palavras que nos elevam.

beijinho

Sinval Santos da Silveira disse...

Bom dia!
Fiquei fascinado com seu trabalho.
Parabéns
Sinval

Laços e Rendas de Nós disse...


Porque o possível é possível também pela metamorfose...

Perfeito!

Beijo

Laura

Unknown disse...

maravilha de poema, imenso


beijo

Daniel C.da Silva disse...

A música envolve; o poema diz-se, e não se comenta. Fica-se assim...

Gostei muito.
Beijinho amigo

Mar Arável disse...

Em vários poemas já experimentei respirar por guelras

aqui também

Bj

Justine disse...

Gostei a sério do teu poema: simultaneamente cru, despojado, harmonioso,sensível. E fala de gatos:))))))))

Obrigada pela visita ao Quarteto!
Bom fim de semana

Mel de Carvalho disse...

sabes que mais, Lídia? nada me atormentava tanto quanto retirar do aquário peixes mortos. acabei com o aquário. ponto final!
... e nada me perturba mais que ver as "minhas" andorinhas bebés caídas do ninho e igualmente mortas...
mantenho os ninhos, ano após ano,e, um dia destes, não consigo entrar em casa, porque, em todos os locais surgem novos agregados, na certa porque se sentem seguras aqui.
mas dói quando se perdem e a minha gata as acha ...
é um sentimento estranho, porque vejo a morte como um percurso e sequer a temo... adiante.

leio-te sempre com o maior carinho, bem sabes. admiro-te de sobremaneira.

beijo meu, tem um excelente fds
Mel

São disse...

Belo poema, o que também já não surpreende...

Bom final de semana

Carmen Lúcia.Prazer de Escrever disse...

Lindo blog Lidia,com textos maravilhosos.

Vejo muitos amigos por aqui e aqui ficarei se me der sua licença.

bjs

Carmen Lúcia-mamymilu.blogspot.com

Emília Simões disse...

Fabuloso poema, Lídia!
Apenas acrescento a minha enorme admiração pela qualidade da sua poesia!
Um beijinho.
Ailime

O Puma disse...

A respirar assim

chegamos ao mar

Graça Sampaio disse...

Difícil, Lídia!

Também eu queria aprender a respirar por guelras... talvez não sentisse este sufoco.

Beijinhos

Mª João C.Martins disse...



" Insustentável" , até que o peito comprimido se liberte na sua própria cadência.

Para guardar... porque há muito que precisa ser dito!

Um beijo

Rogério G.V. Pereira disse...

Também li os comentários...

Sobra para mim, dizer-te assim: a metamorfose é o meu estado de poema e o meu destino é o mar