o mundo franzido num pingo interior de claridade
e todas as coisas de súbito simples lúcidas
exteriorizo sensações porque
elas existem
possuo-as enquanto existem leio-as
como uma prosa realista em sóbrias revelações
mas nomeá-las é deixar de as ver
desconhecer no nome o objecto
nomeado
estranhar da própria mão a semântica
e a sintaxe a grafia
e a geometria do dito
adverso ao ditado
para quê reduzir a
grandeza das coisas
proferindo-as
o rio corre desalumiado e
lento
as árvores estão manchadas
de incompreensíveis brilhos
as aves debicam derradeiros bagos de sol
os gatos amornecem no
limiar das portas
enquanto os barcos passam lentos e noturnos
por que não me bastam as imagens
vê-las simplesmente ou nem
sequer as ver
sabê-las sem lhes questionar matrizes contornos
sem descrer das [absurdas] certezas dos sentidos
Passar pela vida
pensando-a com os olhos
não com o pensamento afeito
ao indagar catalogar ordenar limitar
a toda a largura da desordem vigente
Quem me salva desta teia
Quem me salva de pensar

16 comentários:
desde o título um poema altíssimo
beijo
Isso não tem salvação rsrsrs
Se por uma lado, é verdade, as palavras são insuficientes para traduzir certas imagens, por outro lado, passamos sempre com tanta pressa pela vida, que precisamos de palavras assim, como as suas, que nos façam imaginar a beleza que deixamos de ver.
Beijos
As imagens , de facto, não bastam e do fardo de pensar ninguém nos pode libertar...
Parabéns pelo excelente poema e um abraço
Contradições do sentir.
O bálsamo da escrita.
bj
Lindo demais, é tão bom ler-te, entramos nas tuas poesias!
E que os poetas não se calem nunca.
Beijinhos
Soberbo poema, Lídia... soberbo pensar.
Um abraço grande
Virgínia
[o meu lugar novo: http://naoparesdenascer.blogspot.pt/ ]
Amiga Lídia, poema à altura de um Fernando Pessoa.
Parabéns pelo alto nível do poema.
Um abraço daqui do sul do Brasil.
ninguém te salva, só tu própria.
e o teu poema belíssimo é um exemplo disso.
muito belo!
bom fim de semana.
beijo
:)
o indizível existe - e o sublime também!...
que teu poema celebra. em rara beleza.
beijo
Bonita valsa tocada em imagem antiga de um poema sempre novo...
beijo amigo
Olá Lídia, um daqueles momentos poéticos que simplesmente leio e releio e tenho receio de comentar para não desvirtuar as suas sublimes palavras. Belísismo! Um beijinho. Ailime
Só tu própria poderás ser a salvação ou a perdição.
Beijinhos
As palavras e imagens são apenas apoio e nem sempre separamos os devaneios da realidade,
os poetas nos salvam...
abraço
Lídia,
Nunca podemos fugir às matrizes.
Podemos sonhar mas é tudo ilusão.
Beijinho e gostei muito de ler este poema.:)
um poema pleno e apesar de toda a plenitude há os pensamentos que
nos alargam e nos turvam
...
bravíssimo!!!
Belissimo poema. Por vezes pensar trás alguma dôr e amargura, mas também nos relembra os momentos especiais que por nós passaram.
Bom domingo
Beijinhos
Maria
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