quarta-feira, 18 de setembro de 2013

figurações do dizer no limiar da voz

                                                                                                                             imagem google s/ ind. autoria

uma luz  dentro da luz
o mundo franzido num pingo interior de claridade
e todas as coisas de súbito simples lúcidas

exteriorizo sensações porque elas existem
possuo-as enquanto existem leio-as
como uma prosa realista em sóbrias revelações

mas nomeá-las é deixar de as ver
desconhecer no nome o objecto nomeado
estranhar da própria mão a semântica
e a sintaxe a grafia e a geometria do dito
adverso ao ditado

para quê reduzir a grandeza das coisas 
proferindo-as
o rio corre desalumiado e lento
as árvores estão manchadas de incompreensíveis brilhos
as aves debicam derradeiros bagos de sol
os gatos amornecem no limiar das portas
enquanto os barcos passam lentos e noturnos

por que não me bastam as imagens 
vê-las simplesmente ou nem sequer as ver
sabê-las sem lhes questionar matrizes contornos  
sem descrer das [absurdas] certezas dos sentidos

Passar pela vida pensando-a com os olhos
não com o pensamento afeito
ao indagar catalogar ordenar limitar 
a toda a largura da desordem vigente

Quem me salva desta teia 
Quem me salva de pensar





16 comentários:

Unknown disse...

desde o título um poema altíssimo



beijo

Mateus Medina disse...

Isso não tem salvação rsrsrs

Se por uma lado, é verdade, as palavras são insuficientes para traduzir certas imagens, por outro lado, passamos sempre com tanta pressa pela vida, que precisamos de palavras assim, como as suas, que nos façam imaginar a beleza que deixamos de ver.

Beijos

São disse...

As imagens , de facto, não bastam e do fardo de pensar ninguém nos pode libertar...

Parabéns pelo excelente poema e um abraço

Armando Sena disse...

Contradições do sentir.
O bálsamo da escrita.

bj

Lilá(s) disse...

Lindo demais, é tão bom ler-te, entramos nas tuas poesias!
E que os poetas não se calem nunca.
Beijinhos

Virgínia C. disse...

Soberbo poema, Lídia... soberbo pensar.

Um abraço grande

Virgínia

[o meu lugar novo: http://naoparesdenascer.blogspot.pt/ ]

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, poema à altura de um Fernando Pessoa.
Parabéns pelo alto nível do poema.
Um abraço daqui do sul do Brasil.

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

ninguém te salva, só tu própria.

e o teu poema belíssimo é um exemplo disso.

muito belo!

bom fim de semana.

beijo

:)

Manuel Veiga disse...

o indizível existe - e o sublime também!...

que teu poema celebra. em rara beleza.

beijo

Daniel C.da Silva disse...

Bonita valsa tocada em imagem antiga de um poema sempre novo...

beijo amigo

Emília Simões disse...

Olá Lídia, um daqueles momentos poéticos que simplesmente leio e releio e tenho receio de comentar para não desvirtuar as suas sublimes palavras. Belísismo! Um beijinho. Ailime

Pérola disse...

Só tu própria poderás ser a salvação ou a perdição.

Beijinhos

lis disse...

As palavras e imagens são apenas apoio e nem sempre separamos os devaneios da realidade,
os poetas nos salvam...
abraço

ana disse...

Lídia,
Nunca podemos fugir às matrizes.
Podemos sonhar mas é tudo ilusão.

Beijinho e gostei muito de ler este poema.:)

Domingos Barroso disse...

um poema pleno e apesar de toda a plenitude há os pensamentos que
nos alargam e nos turvam
...


bravíssimo!!!

Maria Rodrigues disse...

Belissimo poema. Por vezes pensar trás alguma dôr e amargura, mas também nos relembra os momentos especiais que por nós passaram.
Bom domingo
Beijinhos
Maria