quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Coisas de nada

     
   Por vezes, as palavras, como as crianças, tomam-se de birras e recusam cumprir os requisitos que lhes impomos, convencidos que estamos de que  elas dirão sempre o que queremos quando, na verdade, só dizem o que elas querem. Assim me tem acontecido, ultimamente.
     Tanto do que falar: Madiba, Nadir Afonso, Manoel de Oliveira, o Papa Francisco, isto só para referir assuntos nobres, mas há outros como a contestação na Ucrânia, a nossa retoma económica(?), a prova dos professores em cima da avaliação dos alunos, o frio, a falta de neve na serra para os turistas, sei lá! Uma infinidade de  temas a que dar tratamento e eu, a escrever, o dia inteiro, para os miúdos, alguns dos quais já nem se lembram que eu existo e outros nunca me chegarão a conhecer. 
  Entrei no dia como quem entra num abraço quentinho. Mas logo uma pinga, ping...ping...ping... na pia da cozinha, me obrigou a pôr uma letra na música que me chegava; depois um cavalinho de pau no sótão da minha infância, toc...toc... toc...toc, mesmo a pedir um amigo para partir à aventura; uma sobrinha que vai completar nove anos e quer ser bailarina; um conto de natal que me trouxe à memória uma bola menos brilhante do pinheirinho...  Enfim! Um dia, em sossego, a escrever pequenices, niquices, coisas de nada.
Assim:



Eu queria ser bailarina
Em biquinhos de pés dançar
E sem nunca ficar tonta
Rodopiar, rodopiar, rodopiar.

Eu queria ser uma nuvem
Mais macia que o algodão
E brincar ao faz de conta 
Ser sereia, ser duende ser anão.

Eu queria ser uma flor
Morar no meio do  jardim
Ter borboletas e abelhas
A voar junto de mim.

Eu queria ser uma estrela
Cintilar na noite fria
E piscar aos meus amigos
Que não me veem de dia.

Bailarina, nuvem, flor
Estrela, navio, vento
Ou seja lá o que for
Está tudo ao meu dispor
Guardado no pensamento.

Para a Inês

14 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Entrar no dia como quem entra num abraço quentinho é coisa de muito

que se solta no pensamento

(um beijo à Inês, diga-lhe que é de um amigo)

Isabel disse...

Gostei imenso do poema!

Rosa dos Ventos disse...

Coisas de nada que deram um belo post!
E eu parada...falar desses grandes vultos não iria acrescentar nada ao muito que já foi dito, falar dos problemas que nos assombram e a outros povos a mesma coisa!
Como sou uma prosaica aqui estou à espera de balanço!

Abraço

Graça Sampaio disse...

«pequenices, niquices, coisas de nada» - nem por isso! Eu gosto e (já) não sou criança...

Escrevas tu o que escreveres, sai sempre bem - muito bem!

Beijinho.

Manuel Veiga disse...

pequenas coisas - plenas!

muito belo

beijo

O Puma disse...

Pequenos grandes nadas
quando se escreve com amor
mesmo que seja só para nós
um dia leitores
a desvendar o que escrevemos

Delicioso poema amiga de mim

Unknown disse...

em sossego, este bem estar



beijo

Silenciosamente ouvindo... disse...

Mas a amiga escreveu um belo
post. Gostei muito.
Desejo que esteja bem.
Bj.
Irene Alves

Thuan Carvalho disse...

é como ser quem se quer.

lindo!

Mar Arável disse...

Bjs da minha romã
recriada

JP disse...

Não são palavras nem coisas de nada, não senhor. Muito nobres os temas...


O poema lindo como sempre, guardado aqui...

Beijo

Catarina disse...

Eu gosto de pequenices porques elas fazem parte do meu dia a dia.
Bjos

AC disse...

Lídia,
Há devaneios de infância que nunca desaparecem, aconteça o que acontecer. E ainda bem.

Beijo :)

Joaquim do Carmo disse...

"... pequenices, niquices, coisas de nada" mas... TANTO, Lídia, de VIDA!
Que bom partilhar connosco tais PÉROLAS!
Beijinho