domingo, 19 de janeiro de 2014

Eugénio de Andrade

Póvoa da Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 / Porto,13 de Junho de 2005


[…]
Tenho uma relação difícil com o país, é certo. Alguém há dias me chamou a atenção para o facto de a palavra Portugal não ter aparecido nunca num texto meu. Deve ser verdade. O meu desprezo pela mentalidade daqueles ”que nunca levaram porrada”, e o regime de Salazar, inviabilizaram o uso da palavra. Como os cantores da rádio tornaram ridícula a palavra amor, e os vates da televisão odiosa a palavra poeta. Há vocábulos que , só de ouvi-los em certas bocas, dão vontade de vomitar.
Dizia eu que a minha relação com o país não é fácil. É um país talhado para a mediocridade, onde os homens são só até à cintura, parodiando um verso do meu amigo Mário Cesariny.
 […]

Andrade, Eugénio (Abril, 2011:p. 267) Prosa - Eugénio de Andrade


7 comentários:

Mar Arável disse...

Sempre

na minha mesa de cabeceira
Bjs

Graça Sampaio disse...

Tinha muita razão o poeta!

Rogério G.V. Pereira disse...

Quando eu for tão velho, tão velho
que não recorde a minha própria idade
irei recordar, sempre, o Eugénio de Andrade
(não só por isto, mas também por isto ouvido e escrito)

São disse...

Que pensaria Eugénio hoje desta coisa em que transformaram o país?

Que diria da sórdida manobra política do PSD a meio do processo e culminada na cena vergonhosa da passada sexta-feira na Assembleia da República, para inviabilizar a co-adopção , sem respeito pelas crianças já em situação ?

Boa semana

Unknown disse...

"Há vocábulos, que só de ouvi-los em determinadas bocas, dão vontade de vomitar."

Como tudo isto é recente, é presente e ao mesmo tempo carregado de angústia...

Flor de Jasmim disse...

Cada vez mais gosto de Eugénio!
Excelente homenagem.

beijinho e uma flor

Branca disse...

Eugenio foi sempre o meu eleito desde a juventude, de tal forma que um dia me atrevi a enviar-lhe um poema meu. De volta recebi daquele homem que parecia tao silencioso e austero um livro dedicando-me a parte final do mesmo, estavamos em Fevereiro de 1974, era a "Antologia Breve" numa ediçao que na parte final continha uma entrevista donde constavam alguns conselhos aos jovens poetas. Mal eu sabia que o destino me iria fazer cruzar varias vezes com ele, ao acabar por ir trabalhr para a mesma Instituiçao, onde ele permaneceu ate´`a sua aposentaçao. Muito poderia dizer dele, desde o sentido critico e caustico que encontramos neste texto e de que muitos nao gostavam, nem do facto de apenas fazer o que sentia e nao ser um ser social na mentira que o social pelo social contem, ate´`a extrema delicadeza com que na intimidade acolhia os amigos, um ser unico, silencioso, muitas vezes sozinho dentro da cidade, mas de um silencio tao digno e preenchido que era sempre uma"montanha" que atravessava a rua no nosso caminho, um rio que passava a nosso lado, ainda hoje uma presença na nossa vida, tao refrescante, que dizia poesia como um passaro a cantar, ele que era a natureza no seu mais alto expoente!

Gostei muito Lidia.
Beijos
Branca