Póvoa da Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 / Porto,13 de Junho de 2005
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Tenho uma relação difícil com o país,
é certo. Alguém há dias me chamou a atenção para o facto de a palavra Portugal não ter aparecido nunca num
texto meu. Deve ser verdade. O meu desprezo pela mentalidade daqueles ”que
nunca levaram porrada”, e o regime de Salazar, inviabilizaram o uso da palavra.
Como os cantores da rádio tornaram ridícula a palavra amor, e os vates da televisão odiosa a palavra poeta. Há vocábulos que , só de ouvi-los em certas bocas, dão
vontade de vomitar.
Dizia eu que a minha relação com o
país não é fácil. É um país talhado para a mediocridade, onde os homens são só
até à cintura, parodiando um verso do meu amigo Mário Cesariny.
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Andrade, Eugénio (Abril, 2011:p. 267) Prosa - Eugénio de Andrade
Andrade, Eugénio (Abril, 2011:p. 267) Prosa - Eugénio de Andrade
7 comentários:
Sempre
na minha mesa de cabeceira
Bjs
Tinha muita razão o poeta!
Quando eu for tão velho, tão velho
que não recorde a minha própria idade
irei recordar, sempre, o Eugénio de Andrade
(não só por isto, mas também por isto ouvido e escrito)
Que pensaria Eugénio hoje desta coisa em que transformaram o país?
Que diria da sórdida manobra política do PSD a meio do processo e culminada na cena vergonhosa da passada sexta-feira na Assembleia da República, para inviabilizar a co-adopção , sem respeito pelas crianças já em situação ?
Boa semana
"Há vocábulos, que só de ouvi-los em determinadas bocas, dão vontade de vomitar."
Como tudo isto é recente, é presente e ao mesmo tempo carregado de angústia...
Cada vez mais gosto de Eugénio!
Excelente homenagem.
beijinho e uma flor
Eugenio foi sempre o meu eleito desde a juventude, de tal forma que um dia me atrevi a enviar-lhe um poema meu. De volta recebi daquele homem que parecia tao silencioso e austero um livro dedicando-me a parte final do mesmo, estavamos em Fevereiro de 1974, era a "Antologia Breve" numa ediçao que na parte final continha uma entrevista donde constavam alguns conselhos aos jovens poetas. Mal eu sabia que o destino me iria fazer cruzar varias vezes com ele, ao acabar por ir trabalhr para a mesma Instituiçao, onde ele permaneceu ate´`a sua aposentaçao. Muito poderia dizer dele, desde o sentido critico e caustico que encontramos neste texto e de que muitos nao gostavam, nem do facto de apenas fazer o que sentia e nao ser um ser social na mentira que o social pelo social contem, ate´`a extrema delicadeza com que na intimidade acolhia os amigos, um ser unico, silencioso, muitas vezes sozinho dentro da cidade, mas de um silencio tao digno e preenchido que era sempre uma"montanha" que atravessava a rua no nosso caminho, um rio que passava a nosso lado, ainda hoje uma presença na nossa vida, tao refrescante, que dizia poesia como um passaro a cantar, ele que era a natureza no seu mais alto expoente!
Gostei muito Lidia.
Beijos
Branca
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