Imagem: António Capel
As
horas descem a ladeira da tarde e não sei em que vale ou bosque me desconjunto.
Do quarto à cozinha, da cozinha à sala... Um armário, uma gaveta…
Detenho-me num envelope. Contém fotografias
antigas: eu, pequeníssima, caracóis louros [ainda], sentada no triciclo como se
soubesse pedalar; eu, outra vez, agora no colo do meu pai e o meu irmão mais
velho, todo empertigado, da altura de uma perna do pai. Petulante, os dentes
pequeninos em riso aberto para o retrato; a avó no casamento do tio que deveria ser
padre, o seu rosto tomado por uma despropositada e, (a esta distância), quase divertida tristeza. O braço benevolente
do pai sobre os seus ombros, num
carinhoso abraçar que a objetiva “apanhou”. Ele que não quisera casar -se com a “Virinha”,
rapariga de boa família, linda como os amores, que só saía aos domingos para a
missa e, ainda assim, sob o olhar
atento dos pais, não fosse algum malandro atrever-se a rondar-lhe a saia. E que bem bordava, a pequena...
- Um abraço!… Recompensa pouca para tanto
estrago – parece estar ela a pensar.
- Os filhos, os filhos!...
Regresso ao presente, a que me obrigo. Escrevo.
Mas tenho em mim sensações que me não cabem nos versos a que tento dar forma.
Há uma porta escancarada para o terraço.
Antigo. Os ramos da cerejeira espiam-no de perto. No lado esquerdo, o estendal de
rede onde cora a roupa branca, os catos em vasos alinhados, mirrando ao sol. Mais
logo, à hora do gato abandonar a frescura do abrigo, debaixo do tanque, quando a sombra
apaziguadora do fim da tarde escorregar das paredes brancas, virás regá-los, avó.
Leve e forte, ao mesmo tempo, a imagem que
de ti me traz a memória.
Sabia lá eu, na minha ingenuidade de
criança, que um dia, logo ali, um pouco adiante, morrerias. Sabia lá eu!...
O teu
cabelo ainda por branquejar, enrolado, junto à nuca, preso com ganchos que eu
te passava, um a um, contando-os, em frente do psiché; o avental de peito, às
riscas, envolvendo o corpo esguio, sempre em aprumo, o regador de lata obedecendo às ordens
brandas das tuas mãos magras e enrugadas.
As tuas mãos!… Quando fazia frio, friccionava-las,
uma na outra, com uma atenção descabida, como se quisesses reanimá-las, receando que desfalecessem deixando tarefas por cumprir.
-
Esfregas as mãos tal como a tua avó –
Lembra-me minha mãe, (que não se chama Virinha), ao surpreender-me no mesmo gesto.
É
que também eu tenho sempre as mãos frias e tanto por realizar.
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10 comentários:
"...tenho em mim sensações que me não cabem nos versos a que tento dar forma."
Foi bela a tua prosa.
Recuar a tempos de criança, a essa memória, é difícil fazer caber em belas metáforas...
Muito bom, Lídia. Um abraço daqui do sul do Brasil. Tenhas um lindo e maravilhoso 2014.
Uma fotografia bem emoldurada com as tuas, sempre bonitas, palavras sobre uma infância que teima em não desaparecer. Mesmo com as mãos frias e tanto para realizar.
Gostei muito
Um beijo
E são tantas as recordações que nos correm nos dedos.
Diante de pequenas fotos quantas são as imagens trazidas aos nossos olhos
Até o tempo e o frio nos pesam nesses dias em que o entardecer se torna uma coisa viva...
As memórias, tantas...
Beijos.
Belas memórias não fora as mãos frias
Bjs
Palavras repletas de encantamento.
Beijinho
Quanta poesia para uma manhã uma manhã de domingo. Tua prosa é poderosa.
este tanto por fazer
e queima
beijo
Muito bonita, esta crónica. Bj
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