sábado, 4 de janeiro de 2014

"saudosando" por aí...

       Imagem: António Capel
     As horas descem a ladeira da tarde e não sei em que vale ou bosque me desconjunto.
   Do quarto à cozinha, da cozinha à sala... Um armário, uma gaveta…
 Detenho-me num envelope. Contém fotografias antigas: eu, pequeníssima, caracóis louros [ainda], sentada no triciclo como se soubesse pedalar; eu, outra vez, agora no colo do meu pai e o meu irmão mais velho, todo empertigado, da altura de uma perna do pai. Petulante, os dentes pequeninos em riso aberto para o retrato; a avó no casamento do tio que deveria ser padre, o seu rosto tomado por uma despropositada e, (a esta distância), quase divertida tristeza. O braço benevolente do  pai sobre os seus ombros, num carinhoso abraçar que a objetiva “apanhou”. Ele que não quisera casar -se com a “Virinha”, rapariga de boa família, linda como os amores, que só saía aos domingos para a missa e, ainda assim,  sob o olhar atento dos pais, não fosse algum malandro atrever-se a rondar-lhe a saia. E que bem bordava, a pequena...
 - Um abraço!… Recompensa pouca para tanto estrago – parece estar ela a pensar. 
- Os filhos, os filhos!...

          Regresso ao presente, a que me obrigo. Escrevo. Mas tenho em mim sensações que me não cabem nos versos a que tento dar forma.
      Há uma porta escancarada para o terraço. Antigo. Os ramos da cerejeira espiam-no de perto. No lado esquerdo, o estendal de rede onde cora a roupa branca, os catos em vasos alinhados, mirrando ao sol. Mais logo, à hora do gato abandonar a frescura do abrigo, debaixo do tanque, quando a sombra apaziguadora do fim da tarde escorregar das paredes brancas, virás regá-los, avó.
     Leve e forte, ao mesmo tempo, a imagem que de ti me traz a memória.
    Sabia lá eu, na minha ingenuidade de criança, que um dia, logo ali, um pouco adiante, morrerias. Sabia lá eu!...
    O teu cabelo ainda por branquejar, enrolado, junto à nuca, preso com ganchos que eu te passava, um a um, contando-os, em frente do psiché; o avental de peito, às riscas, envolvendo o corpo esguio, sempre em aprumo, o regador de lata obedecendo às ordens brandas das tuas mãos magras e enrugadas.
    
   As tuas mãos!… Quando fazia frio, friccionava-las, uma na outra, com uma atenção descabida, como se quisesses reanimá-las, receando que desfalecessem deixando tarefas por cumprir.
- Esfregas as mãos tal como a tua avó – Lembra-me minha mãe, (que não se chama Virinha), ao surpreender-me no mesmo gesto. 

É que também eu tenho sempre as mãos frias e tanto por realizar.



10 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

"...tenho em mim sensações que me não cabem nos versos a que tento dar forma."
Foi bela a tua prosa.
Recuar a tempos de criança, a essa memória, é difícil fazer caber em belas metáforas...

Dilmar Gomes disse...

Muito bom, Lídia. Um abraço daqui do sul do Brasil. Tenhas um lindo e maravilhoso 2014.

JP disse...

Uma fotografia bem emoldurada com as tuas, sempre bonitas, palavras sobre uma infância que teima em não desaparecer. Mesmo com as mãos frias e tanto para realizar.

Gostei muito

Um beijo

Unknown disse...

E são tantas as recordações que nos correm nos dedos.
Diante de pequenas fotos quantas são as imagens trazidas aos nossos olhos
Até o tempo e o frio nos pesam nesses dias em que o entardecer se torna uma coisa viva...

Graça Pires disse...

As memórias, tantas...
Beijos.

O Puma disse...

Belas memórias não fora as mãos frias
Bjs

Pérola disse...

Palavras repletas de encantamento.

Beijinho

Anónimo disse...

Quanta poesia para uma manhã uma manhã de domingo. Tua prosa é poderosa.

Unknown disse...

este tanto por fazer
e queima



beijo

Anónimo disse...

Muito bonita, esta crónica. Bj