domingo, 31 de janeiro de 2016

Domingo


Giarrano


O domingo é longo. Mais ainda quando, abertas as portadas, se dá com um janeiro inerte colado contra a névoa, um bafo animal ansioso e gélido a flutuar sobre as árvores e os arbustos cada vez mais ressequidos.  
O domingo tem sempre tanto tempo, sobretudo se é janeiro, sobretudo se não se levam já as crianças à casa dos avós, ao parque, ao jardim, ao circo...
Se ao menos houvesse vento, harpas soariam na pauta dos ramos dos pinheiros e talvez esta mudez estagnada cessasse de crescer-nos na pele. Uma espécie de paz húmida e azulada, uma sensação aquosa de eternidade que paira ameaçadora sobre todas as coisas. 
Se ao menos não fosse sempre janeiro nos  membros das aves embalsamadas.



4 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

"membros das aves embalsamadas."
referes-te, poeta
a asas paradas?

Calma,
amanhã é outro mês

Graça Pires disse...

Confesso que ouvi as harpas por aqui, porque Janeiro passou e o domingo também e porque os pássaros recuperaram as asas para voarem até um lugar sem sombras...
Escreves mesmo bem, Lídia.
Um beijo.

Graça Sampaio disse...

Os domingos são sempre longos...

(que belo pedaço de prosa bem poética!)

orvalhos poesia disse...

Olá Lídia faz tempo não vinha visitá-la, mas hoje tirei a barriga da miséria como soa dizer-se, este seu poema, ou prosa poética, fez-me lembrar dos domingos soalheiros em que as andorinhas começavam a chegar à aldeia e as nossas gentes sentadas pelas portas pensavam na vida que era afinal simples e as horas passavam vagarosamente...

É um prazer ler a amiga, grata por isso...continuação de boa semana.