terça-feira, 14 de junho de 2016

Da viagem





minha vivência é de pássaros.
se não canto ainda
é por não ter corpo na voz.

meu mundo amplia-se
entre o sulfato das hidranjas
e o carmim das rosas.
se de pétalas são os dedos
é por nunca terem tocado
rochas ou fusos.

minha viagem decorre
em navios de papel
páginas e páginas debulhadas
para apreender o sabor do sal.
o que custa folhear tempestades
de modo a originar uma palavra
eterna de tudo!*

o que custa atracar em cais
suspensos das próprias amarras
o que custa permanecer, ainda.
minhas mãos tingidas do sangue alheio
minha voz contorcida à boca
de mil morreres.

como se fossem pastoris todos os idílios
o sol continua a arder
no dorso das searas.




*verso de “Hino a Zeus”, Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira


1 comentário:

Ibel disse...

Escreve versos, pequena, escreve versos..., porque a tua "vivência é de pássaros", "como se fossem pastoris todos os idílios".