Imagem:Jeff Larson
quando numa manhã de agosto
a minha rua me surgiu aos olhos
subitamente estranha e me vi
a percorrer cada esquina cada porta
cada janela
à procura de uma voz conhecida, de um gato,
de um vaso perfumado de buganvílias…
pus-me a deambular
por todas as ruas onde morei
mesmo sabendo que em nenhuma delas
me esperavas e em nenhumas delas,
se me esperasses, te reconheceria.
quando passei pela mulher velha sentada na
berma
do inverno como se dali nunca tivesse saído
e ela me perguntou numa língua estrangeira
se eu era dali, não soube responder.
só depois reparei no pardal
pousado na corda da
roupa
e lembrei-me que já ontem o vira no mesmo lugar.
era, por certo o mesmo…
grácil, miudinho, quase amarelo quase verde…
canário não era que não cantava...
que nome pode ser dado a um pardal
quase amarelo quase verde que não canta?
não sei se ainda têm nomes as aves
da rua a que chamo minha.
se nela morassem crianças ainda
se as crianças, para lá das ruas que vou
esquecendo
não crescessem tão exasperadamente,
se na minha rua morassem crianças
em lugar de
sombras
elas dir-me-iam os nomes de todos os pardais
que lhes sobrevoam a alegria.
contar-me-iam histórias de voos impossíveis
e eu acreditaria…
acreditaria porque são verdadeiros
todos os voos onde os pardais têm um nome.
todos os pardais tinham um nome nas ruas
onde há muito deixaram de me conhecer
nas ruas onde não me encontro
porque há muito deixaram de me conhecer.
entretanto
com tantas hesitações na voz, tantas demoras do
dizer
o pardal, quase amarelo quase verde,
voou da corda da roupa para a folhagem do
aloendro.
demorou-se apenas o tempo breve de um regresso
antes de tombar inanimado no empedrado do pátio,
folha seca em prelúdio de outono.

3 comentários:
Um divagar pelas ruas do passado, onde a alegria da infância inundava o coração e todos os sonhos eram possíveis.
Maravilhoso poema, obrigado por este momento.
Beijinhos
Maria
Senti o mesmo, a mesma sensação
De regresso à rua onde,
ainda de bibe
jogava ao berlinde
e lançava o pião
agora recordo, não havia pássaros
nem velhas sentadas
nem estendais
nem crianças
nem sombras
perdida, nessa Lisboa
jaz morta
a rua da minha infância
(aquela já não era
a mesma
que trago na lembrança)
Muito lindo, muito lindo, Lídia!!
Uma nostalgia muito ao gosto de Pessoa. Ou será ao gosto de Campos? Quase o mesmo... Muito lindo!
Beijinho
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