sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Soneto da Chuva



Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua. 

Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas. 

Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Carlos de Oliveira, in Terra de Harmonia


A poesia de Carlos de Oliveira tem o dom de me "prender",  por dias e dias seguidos. 
Há nela uma melancolia que se distancia da desistência, da entrega, para se configurar num modo muito próprio de resistir. O seu "amargo rio" é para mim de fácil entendimento. A quem, no contexto do neorrealismo, o acusou de que a sua arte levava a um estado depressivo, inibidor da ação, contrário à necessidade premente de transformação no país e no mundo, por via da Esperança, ele responde deste modo, noutro soneto, do qual realço estes versos:


Hei-de contar-vos a beleza um dia
Entretanto deixai que me cale:
Até que o muro fenda, a trave estale
Seja a tristeza o vinho da vingança
[…]

Se quem confia a própria dor perscruta
Maior glória tem em ter Esperança.

Agrada-me muito esta tomada de posição que se impõe contra máscaras escamoteadoras da realidade que se não quer inteira, realidade sim, mas relativa, apostando na adesão pelo lado da ingenuidade mais do que pelo questionamento ideológico.

Identifico-me plenamente com esta melancolia. 





1 comentário:

Rogério G.V. Pereira disse...

De poeta e de melancólico
todos temos um pouco

(Carlos Oliveira é meu irmão)