terça-feira, 4 de julho de 2017

Escrita Criativa



(imagem google s/ind. autoria)


Quando eu era criança, na escola primária, as redações (com c), tinham temas muito “à moda da casa”, (corriam os anos sessenta e o Estado era Novo). Meninas numa escola, meninos noutra. Não sei se os temas das redações eram os mesmos nas duas escolas. Acredito que fossem, em alguns casos. O trabalho ocupava lugar de destaque, sobretudo o que se ligava aos meios rurais e as composições escritas acompanhavam a tendência: – o porco, a vaca, a vinha, o mel, o milho,… Havia “carreiros” pré-definidos por onde teríamos de seguir invariavelmente sobre pena de sermos humilhados em frente de todos.
Um dia a minha professora de lindos cabelos brancos, Dona Laura, (que eu adorava) colocou-nos, em frente dos olhos, uma imagem que representava uma menina rebelde, despenteada, descalça, uma perna para cada lado, sentada no chão, num quarto, a ler. Em seu redor reinava a maior confusão: gavetões abertos vomitando roupas engelhadas, a cama por fazer, sapatos espalhados por todo o lado, caixas caixinhas e caixotas, tudo em perfeito desalinho. Nunca mais me esqueci desta imagem, talvez porque fugisse um pouco ao habitual. Daquela mala de cartazes que a professora abria, de quando em vez, saíam quase sempre, montanhas, planícies, vales, os rios, o mar, os barcos, os pescadores, (penso que frequentava a 2.ª ou 3.ª classe).
A terminar qualquer composição escrita era suposto dizermos – “Eu gosto/não gosto muito desta gravura”. Mas eu, depois de narrar o que via, seguindo todas as pistas escritas no quadro, (ao centro…à direita… à esquerda… em cima…em baixo… perto de… no canto superior direito… no canto inferior esquerdo… terminei dizendo que se eu fosse aquela menina, quando acabasse de ler o livro, arrumaria o quarto. Eu ainda não sabia o que, nesse tempo, a literatura fazia às mulheres. Ainda não conhecia a Maria da Piedade do conto do Eça que, por ler novelas e romances, transformou-se numa galdéria desmazelada e monstruosa. (Ora, Eça!).
Não sei por que motivo a Dona Laura não me deixou ir ao recreio, nesse dia, e me pôs de castigo a escrever tudo de novo para eu, menina que era, aprender a estabelecer prioridades. Acho que a menina tinha de arrumar tudo primeiro e ler só depois, se sobrasse tempo. Foi o que eu escrevi para que a Dona Laura não continuasse zangada. Uma questão de prioridades que eu ainda não entendera e urgia que entendesse, quanto mais cedo melhor. 
Talvez na escola dos meninos, se por ventura o mesmo cartaz fosse exibido, muitos deles tivessem tido direito ao recreio, depois de escreverem - se eu fosse aquela menina…blá, blá, blá.. (ufa, ainda bem que não sou!),  terem concluído a redação (com c) e com uma declarativa/negativa- “eu não gosto nada desta gravura”.

         Pensando à luz do presente, a partir desse “Se eu fosse” é possível uma transposição do Eu para o Outro que pode ter o seu interesse. Não apenas o Se eu fosse... uma flor, uma borboleta, um passarinho… que já se faz frequentemente, mas,
comecemos assim o exercício:
 Se eu fosse… um refugiado… um negro… um albino… um deficiente… um sem-abrigo…

      "Ficar" no lugar do Outro, por algum tempo, pouco que seja, pode abrir algumas frinchas nas janelas  que continuam empenadas, difíceis de abrir. Pode ser pouco, mas é já alguma coisa.






2 comentários:

deep disse...

Fomos educadas (digo "educadas", porque as mulheres sempre foram mais penalizadas pelo "desleixo") a ter de ser arrumadas e a termos de cumprir antes, para usufruirmos do prémio depois. Lembro-me de, apesar das admoestações da minha mãe e das tentativas de me "educar, não ter deixado de ser essa menina sentada no chão do quarto, a ler ou a copiar poemas ou letras de canções para cadernos, enquanto à minha volta reinava a desordem. De certa forma, ainda sou um pouco assim. Lembro-me de, há uns meses, ter uma pilha de trabalho para fazer e de ter passado umas três horas a ler, sem me levantar do sofá.
Esperava, Lídia, que o final da sua história fosse diferente e que, apesar da idade, a D. Laura fosse uma mulher com ideias "avant la lettre".
Boa semana e boas leituras. Beijo

Graça Sampaio disse...

Apesar de tudo a tua Dona Laura era bem avançada! Nunca uma professora minha me pôs imagens à frente para fazer uma reda(c)ção... Eram sempre do tipo "a vaca", "a primavera", "o rei D. Dinis" e assim... Nesse tempo, tudo de sair direitinho como elas exigiam e lhes era exigido. Por isso foste de castigo...
Gostei muito deste teu texto. Beijinho.