domingo, 10 de setembro de 2017

Spoken Word



[…] Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.[…],
(Arte Poética III. 1964. Livro Sexto.)


Hoje não faltei à aula. Tive o privilégio de ter por professora Ana Luísa Amaral numa “lição” deliciosa que durou pouco mais de uma hora. (Pouco, como tudo o que é bom). Foi na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, localizada nos Jardins do Palácio de Cristal, esse aprazível espaço, onde decorre a Feira do Livro do Porto. Pela voz sábia, nitidamente apaixonada pela literatura, pela poesia, que é a de Ana Luísa Amaral, a poeta de Inversos, fui levada, (eu e quantos ali estavam para aprender), a entrar, de novo, no universo de Sophia de Mello Breyner Andreson. Deixei-me comover em diversos momentos. É costume. Nada de novo: uma coisa qualquer na garganta, metade sol, metade sombra, a incomodar enquanto afaga, a afagar enquanto incomoda, como uma febre benigna que se contrai pela Poesia e pela Poesia se cura.
Cada poema que chegava trazia o propósito de dar a conhecer a Sophia de Ana Luísa Amaral, conforme a mesma fez questão de revelar, no início da sessão, deixando antever que a obra de Sophia é tão imensa, tão intensa que possibilita um mar sem fim de leituras distintas que, no entanto, parecem confluir, todas elas, num ponto essencial - o conhecimento do ser humano, das suas necessidades, dos seus desejos, a caminho da felicidade. Não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas somos também, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser». (Arte Poética III. 1964. Livro Sexto.)
Cada poema me era novo, outra vez, ainda que no cérebro, a minha voz (era a minha voz, eu sei) pronunciasse, sílaba a sílaba, os versos, uns a seguir aos outros, sem hesitações, sem tropeçar, como passos por caminhos conhecidos.

(fotos minhas)




1 comentário:

Graça Pires disse...

Imagino como deve ter sido fantástico ouvir a Ana Luísa Amaral falar de Sophia... Também gostava...
Um beijo, Lídia.