domingo, 22 de outubro de 2017

Persona e texto literário






 I
Aviso
A partir de agora, iniciarei os meus textos poéticos com uma "indicação" do género:


o eu, será aqui:

uma sonhadora
um paisagista
um equilibrista
um maníaco-depressivo
um solitário
uma virgem
um judeu
uma negra
um homossexual
um herói
um mendigo
uma prostituta
um poeta
uma deusa
uma dona de casa
um político
uma minhoca
um sapo, uma rã
um sapato roto
uma ave
uma árvore
um zé-ninguém
um imperador
uma louca
um …
seja lá o que for.






[…]
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
[…]

Ruy Belo, “Tu estás aqui”


II
sim, todos esses eus
cabem em mim, 
são eu
Quanto ao eu
propriamente dito
sou só isto que sou.
não tenho uma nódoa na camisa
como Ruy Belo não tinha 
uma nódoa na camisa
quando inventou a camisa, a nódoa,
quem usava a camisa 
que exibia a nódoa,
quem afinal habitava o seu poema
sumamente quotidiano.
sou só isto que sou e confesso que
se escrevendo me digo
nunca escrevendo me confesso.
mas cuidado...
lembre-se que sou eu próprio
neste momento
o inventado.

Lídia Borges

 ***


     Em teoria literária, persona tem a ver com uma função da linguagem poética (lírica ou narrativa), através da qual um sujeito empírico delega a enunciação, construindo, assim, a persona poética. Esta vai ter, portanto, uma funcionalidade bastante significativa na redução do estranhamento, a fim de tornar a leitura mais operativa, como produto da expressão de um narrador particularmente abalizado, no caso da narrativa, ou como fator de distinção da voz poética, no caso da lírica.
 
CEIA Carlos, E-Dicionário de Textos Literários.



2 comentários:

Graça Pires disse...

A pluralidade de eus que o sujeito poético é capaz de ser. Fantástico, Lidia.
Uma boa semana.
Um beijo.

Rogério G.V. Pereira disse...

Se tiveres tempo
sê escaravelho
que é o Eu predileto
do meu neto

(consultei Minha Alma e Meu Contrário
e perante a pergunta
se teriam alguma nódoa na camisa
a resposta fez-se pronta
lembrando-me ser apenas Eu
quem veste tal farpela...)