domingo, 10 de dezembro de 2017

Temporais



 (pesquisa s/ ind. autoria)

o vento e a chuva gemem, uivam
violentam freneticamente as palavras
desabrigadas.
em desarrumo, elas desenham
reflexos oscilantes nos
ângulos túrbidos destas linhas de água.
.
uma falha de eletricidade
faz-me continuar a escrever
à luz de uma lanterna providencial.
reparo que automaticamente
as palavras parecem vir de mais longe,
cansadas, molhadas, nevoentas
mas é com elas, que eu sinto
e canto e sofro e rio e choro...
com elas teço meu pensamento,
faço-me e refaço-me,
outra e sempre a mesma,
a partir de uma mão 
de sílabas escassas. 
 
à luz lírica da candeia alumiando
a oração da avó a Santa Bárbara,
mistério das noites de temporal
[como esta que hoje ruge lá fora].
ardia o raminho bento de oliveira,
para que a santa apascentasse
as trovoadas.
galopantes as palavras empurram
levam-me de volta ao lá atrás, ao lá longe
onde a linguagem era todo o desconhecimento
e toda a perturbação.
a brandura instala-se, repentina,
quando as lâmpadas voltam a ser brilho.

as palavras são
a minha terra, a minha rua,
a minha casa, o meu respirar,
o lugar de todas as nascenças
jorradas do ventre de cada morte.



2 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

(tão bonito, isto!)

Graça Pires disse...

Há sílabas recortadas da voz onde as palavras criadas são rios que debandam das nascentes.
É belíssimo este teu poema, minha Amiga Lídia!
"as palavras são
a minha terra, a minha rua,
a minha casa, o meu respirar,
o lugar de todas as nascenças
jorradas do ventre de cada morte."
Magnífico final!
Uma boa semana. Um beijo.