(pesquisa s/ ind. autoria)
o vento e a chuva gemem, uivam
violentam freneticamente as
palavras
desabrigadas.
em desarrumo, elas desenham
reflexos oscilantes nos
ângulos túrbidos destas linhas de água.
.
uma falha de eletricidade
faz-me continuar a escrever
à luz de uma lanterna providencial.
reparo que automaticamente
as palavras parecem vir de mais
longe,
cansadas, molhadas, nevoentas
mas é com elas, que eu sinto
e canto e sofro e rio e choro...
com elas teço meu pensamento,
faço-me e refaço-me,
outra e sempre a mesma,
a partir de uma mão
de sílabas escassas.
à luz lírica da candeia alumiando
a oração da avó a Santa Bárbara,
mistério das noites de temporal
[como esta que hoje ruge lá fora].
ardia o raminho bento de
oliveira,
para que a santa apascentasse
as
trovoadas.
galopantes as palavras empurram
levam-me de volta ao lá atrás, ao lá longe
onde a linguagem era todo o desconhecimento
e toda a perturbação.
a brandura instala-se, repentina,
quando as lâmpadas voltam a ser brilho.
as palavras são
a minha terra, a minha rua,
a minha terra, a minha rua,
a minha casa, o meu respirar,
o lugar de todas as
nascenças
jorradas do ventre de cada morte.

2 comentários:
(tão bonito, isto!)
Há sílabas recortadas da voz onde as palavras criadas são rios que debandam das nascentes.
É belíssimo este teu poema, minha Amiga Lídia!
"as palavras são
a minha terra, a minha rua,
a minha casa, o meu respirar,
o lugar de todas as nascenças
jorradas do ventre de cada morte."
Magnífico final!
Uma boa semana. Um beijo.
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