Escolho uma palavra [pequena].
Pode ser pequena,
três ou quatro letras me bastam
para acender a sombra
de um vaga-lume
no coração.
A amplidão dos longes
já não me cabe no peito.
Estende-se para lá das paredes
de uma casa,
de uma casa,
das pás de um moinho;
para lá deste domingo
sem ninhos.
Sem folhas.
Concentro-me na palavra.
Seguro-a pelos pés,
os cabelos, raízes fundas,
o corpo, corça perseguida,
asas tangidas de nevoeiro,
os braços.
a palavra: chão.
.
Percorro-a. E pergunto
como pode uma única sílaba
conter em si
tantos labirintos?
Quantas enfermidades
poderá suportar ainda
sua tez massacrada?
chão:
areia, areia, areia,
dunas movediças...
e umas gotas de mar
que guardo nos
meus olhos.

3 comentários:
Para além da palavra
Bela palavra
a tua, essa, a escolhida
Ter um chão
é uma legítima aspiração
uns tem-no
outros não
Chão: "Percorro-a. E pergunto como pode uma única sílaba conter em si tantos labirintos?"
Magnífico! Que mais acrescentar?
Uma boa semana, minha Amiga.
Um beijo.
Um poema fabuloso.
Assim se faz poesia com os pés bem assentes no chão.
Beijinhos,
Ailime
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